Foto: Correio da Manhã
Malas de Cartão
A Leste do Paraíso
Roma e Pavia levaram vários anos a fazer-se e o mesmo acontece com os jovens países. Não é fácil passar para o papel uma identidade que nunca foi própria, apanhar o passo do mundo internacional. Sobretudo, quando ainda se vivem conflitos de personalidade. Timor podia ser um paraíso mas, por enquanto, fica a leste.
Sentada à janela da carrinha que galga estradas de montanha e de mar em direcção à fronteira, penso que é a segunda vez que deixo Timor com a sensação de não ser um adeus definitivo. Nem à paisagem abrupta e verde, nem ao povo caloroso e pachorrento, nem a amigos que já são de sempre. Ao meu lado vai Amália Rodrigues, mulher de polícia e estudante universitária, que não fala português e não sabe cantar o fado, mas que conhece bem a sua homónima e gosta muito de uma canção 'chamada estranha vida'.
Hoje de manhã, ao despedir-me da família Caeiro Alves, senti isso mesmo. Estranha vida esta que nos põe no caminho gente com a coragem de Mário, a alma de Fátima, as vidas adolescentes de Dicha e de Puppy, a rebeldia de Kury, o sangue latino de Abubo, ou a tranquilidade da avó Isabel. Ninguém diria que um dos filhos foi apunhalado e por pouco não morreu no dia em que mataram Manelito Carrascalão. Ou que estiveram cercados por homens cheios de ódio na casa do bispo Ximenes Belo: 'os indonésios deram-lhes dinheiro, vinho e a cápsula do demónio para que conseguissem matar até pais e irmãos'. Por 'já não ter esperança de vida', Mário fugiu com a família para o aeroporto e conseguiram escapar in extremis para a Indonésia. Ninguém diria que, confortavelmente sentado naquela que foi a sala do restaurante Maubere, trocando histórias com um guerrilheiro das Falintil que viveu 24 anos no mato, houve tempos em que Mário viu a família a dormir em tendas e a comer arroz da ajuda internacional em folhas de bananeira: 'Nem tínhamos pratos.'
Foi há oito anos, mas outra vida aconteceu entretanto. Para eles e para o país. Díli cresceu e vai recompondo as mazelas. Há pequenos jardins, ruas em obras, um festival de cinema a decorrer na Casa da Europa, novas infra-estruturas e empreendimentos, uma árvore de Natal gigante à entrada da cidade. Por causa das transformações passo a tarde à procura da casa de Dina, onde fiquei da última vez que aqui estive. Não a encontro e há muito que perdi a morada. Fica para a próxima, consolo-me, bebendo água de coco fresca na despedida de César que garante: 'quem bebe isto, volta de certeza.'
Amália Rodrigues e as duas africanas das Nações Unidas que partilham comigo o banco da carrinha voltam daqui a uns dias. Eu apanho o barco que me leva de Kupang, capital de Timor Ocidental, até à ilha das Flores, onde fazemos uma paragem breve para apanhar carga e passageiros. Esta ilha, que visitei demoradamente há seis anos e que mantém orgulhosamente o nome português, é de uma beleza estonteante. Em Moni, aldeia no meio do nada, visitei o monte Kelimutu com as suas três crateras vulcânicas ocupadas por lagos, paisagem do outro mundo. As águas têm cores diferentes, 'uma turquesa, outra verde e outra negra', explicara-me John – guia improvisado – na tarde em que me levou a conhecer a sua aldeia natal 'onde vivem alguns topasses', os descendentes dos portugueses. E onde a coisa mais lusitana que encontrei, entre cabanas de palha, teares, um poço, porcos e galinhas, foi um santuário a Nossa Senhora e o sorriso doce de Maria Lúcia Dema.
Porém, na ilha das Flores, perduram várias marcas da nossa importante presença de há 400 anos. Canhões, uma dança chamada Taja Bobu ainda hoje praticada na região de Sikka e a famosa ‘Semana Sancta’ que atrai, todos os anos, milhares de católicos indonésios. Estes, por influência portuguesa, têm no arquipélago de Nusa Tenggara a sua maior expressão. Nove por cento num país com 220 milhões de muçulmanos espalhados por 13 mil ilhas.
Nada fáceis de atravessar por sinal, considero debruçada sobre a amurada do barco onde vou viajar mais dois dias acampada no colchão que tive de comprar ao passageiro anterior, a comer cabeças de peixe frito em tabuleiros tão gordurosos que me escorregam das mãos e a tomar banho ‘de panela’ em cabinas cheias de bagos de arroz e cabelos. Uma brincadeira de crianças, recordo, comparando com a viagem que fiz há seis anos entre Moni e Labuanbajo na companhia de Brian, americano do Tennessee. Nessa altura, por não termos lugar no único autocarro que fazia o percurso, conseguimos que nos deixassem sentar no tejadilho com várias cabras, galinhas e outros passageiros. Apesar de ser difícil manter o equilíbrio, o mais desagradável da aventura era suportar o frio cortante que fazia de madrugada. Um frio subitamente aplacado pela sensação de calor que nos invadiu costas e pernas e que depressa descobrirmos ser o fétido e pegajoso resultado de uma mijadela de cabra. Pelo menos no barco só há baratas do tamanho de ratos e o tubarão-cinzento que vejo passar por baixo da minha cabeça nas águas translúcidas do mar, concluo optimista.
Patrícia Brito
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