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Entrevista de D. Basílio do Nascimento à Renascença

>> 20091223

Por Catarina Santos, em Díli

Fotografia: Fundação Evangelização e Culturas 2008

"Em entrevista à Renascença, D. Basílio descreve os timorenses como “diletantes” e confessa que esperava uma evolução mais rápida em áreas como a saúde e a educação, mas lê sinais positivos nos movimentos políticos actuais.

Acredita que, agora, há condições para que Timor-Leste se vá tornando uma democracia estável.

Rádio Renascença (RR) - Completados dez anos desde que os timorenses escolheram a independência, que balanço faz do caminho feito até aqui?

D. Basílio do Nascimento (BN) - Eu respondia-lhe com uma comparação baseada na opinião de amigos de outros países – das ex-colónias portuguesas, chamemos-lhe assim – que, vendo a nossa realidade, dizem que em dez anos caminhamos muitíssimo mais do que alguns desses países que tiveram a independência há mais de 30. Estas comparações alegram-nos, evidentemente. Não nos resolvem os problemas, mas são um termo de comparação para que eu possa fazer uma ideia daquilo que é o Timor de há 10 anos e o Timor de hoje.

Os primeiros cinco anos foram difíceis, mas, hoje em dia, penso que o país está estabilizado. A nível de segurança, creio que estamos muito melhor do que há dez anos. A nível de outras infra-estruturas, não tanto. Foi-se melhorando, evidentemente, a nível de educação, a nível de saúde, mas eu esperava que andasse um bocado mais depressa do que aquilo que assistimos hoje. Mas creio que é normal nos nascimentos destes países assim. Só desejo que os nossos governantes aproveitem este tempo de paz para começar a lançar estruturas para o futuro, de modo a que o país se possa desenvolver mais depressa do que até agora.

RR - Há cada vez mais vozes a defender uma retirada das tropas estrangeiras. Acha que já há condições para a polícia timorense tomar conta da segurança nacional?

BN - Penso que sim. E, por aquilo que o representante das Nações Unidas, que está a terminar o mandato, me explicou há dias, vai haver uma retirada das forças policiais, mas não o vão fazer tão repentinamente como fizeram em 2004 ou 2005. O certo é que, de há dois anos a esta parte, foi sendo feita, paulatinamente, a passagem da responsabilidade da coordenação da segurança da polícia internacional para as forças locais. Pelo menos na área da minha diocese [de Baucau], espera-se que, até ao final de 2010, os quatro distritos sejam comandados somente por responsáveis timorenses.

RR - Já o ouvimos afirmar que os timorenses não estavam suficientemente empenhados em construir a sua nação. O que é que queria dizer exactamente?

BN - Essa é uma mentalidade que, se calhar, vai demorar tempo a passar. Eu costumo brincar connosco, dizendo que quem tem culpa de tudo isto é o próprio Deus, que dotou esta terra de tudo e fez com que os habitantes fossem um bocado preguiçosos. Não direi preguiçosos… diletantes. Simplesmente, nós temos uma mentalidade muito providencialista: no princípio era Deus, depois vieram os portugueses, depois vieram os indonésios, vieram as Nações Unidas, agora o petróleo… É a nova providência e pensa-se que o petróleo vai resolver os problemas todos. As pessoas julgam que não é preciso trabalhar para se conseguir os objectivos que se pretendem. É a realidade e não se pode mudar as mentalidades por decreto. Esperemos que a nova geração que aí vem seja formada de uma outra maneira, tenha consciência da realidade, mas, sem dúvida nenhuma, vai levar tempo.

RR - Quando o país escolheu a independência, em 1999, D. Basílio presenciou toda a violência que assolou o país. Que marcas ficaram nos timorenses?

BN - Por paradoxal que pareça, eu penso que 1999 desapareceu bastante depressa da memória das pessoas. Julgo que o facto de, entretanto, a liberdade ter vindo quase imediatamente contribuiu para que as marcas não fossem assim tão profundas. Neste momento, vejo que a população está mais marcada por aquilo que aconteceu em 1975 [a invasão de Timor pela Indonésia] e, sobretudo, por aquilo que aconteceu durante a resistência... Porque, entre nós seja dito… Acusa-se a Indonésia de muita coisa, mas nós os timorenses não estamos isentos de muito sofrimento infligido ao próprio povo.

RR - Como é que se compreende, então, que a 7 de Dezembro ainda se faça feriado para comemorar o dia em que a Indonésia invadiu Timor-Leste?

BN - Não sei se é para perpetuar uma memória, se é um pretexto para se ter um feriado. Julgo que nós somos um dos países – não sei se do mundo, mas pelo menos aqui da Ásia – que mais feriados tem. Mas também ainda estamos nesta fase em que se pensa que temos de agradar a gregos e a troianos. Espero que um dia se faça a revisão da Constituição e as coisas sejam um bocado mais orientadas, mas ainda estamos a viver os resquícios de muita coisa. Embora esse contentamento generalizado, em meu entender, está a prejudicar um bocado a vida do país. Mas essas já não são contas do meu rosário…

RR - Nos últimos anos, tem havido vários períodos conturbados em termos políticos. Acha possível que a qualquer momento haja nova explosão?

BN - Não, eu acho que o povo, neste momento, está muito desperto e consciente das coisas e, por estranho que pareça, julgo que os acontecimentos de 2008 [os atentados contra a vida do presidente José Ramos Horta e do primeiro-ministro Xanana Gusmão] criaram uma consciência muito grande, muito profunda no povo, dizendo a toda a gente que podemos brincar, mas não
teremos uma segunda oportunidade.

RR - Ainda no início do mês, a Fretilin [o maior partido timorense, agora na oposição] organizou uma marcha pelas ruas de Díli, reunindo milhares de militantes em protesto contra as políticas do Governo. Isto é preocupante ou um bom sinal?

BN - A Fretilin sente-se um bocado perdida, porque idealizou um tipo de existência para ela própria, quis considerar-se como a única força da nação e, neste momento, vê que é uma das forças. Neste momento, a Fretilin está a fazer um papel muito importante na vida do país, a assumir a oposição com muita convicção, com muita força também e eu acho que isso é sadio para a democracia de um país que começa. E também para eles era uma aprendizagem – o poder não está somente naqueles que administram o país, mas aqueles que estão na oposição também podem dar um contributo muitíssimo grande para o benefício do país." (Rádio Renascença Online)

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REFERENDO TIMOR-LESTE: 10 Anos depois / Antena1

>> 20090828


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Nota pessoal:
Apesar do mau gosto mostrado ao apresentarem algumas fotografias do blogue horroroso Timor Lorosae Nação (resta saber se as fotos são realmente dessa s pessoas), pode sempre ouvir alguns depoimentos interessantes e.g. Atul Khare, Zacarias Albano da Costa, José Ramos-Horta, D. Basílio do Nascimento, algumas declarações prestadas em 1999 (várias) e se quiser ficar enjoado, pode ouvir Malkatiri. Finalmente, as gravações são precedidas de textos, transcrições, suponho, das versões áudio.

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Tavira assinou protocolo com diocese de Timor para construção de escola

>> 20090629

"Nas comemorações do Dia do Município de Tavira, no passado dia 24 de Junho, foi assinado um protocolo entre a autarquia e a Diocese de Baucau (Timor), cabendo ao município apoiar com 27 mil euros a Fundação São José na construção de uma escola secundária, em Laclubar, Manatuto.

D. Basílio do Nascimento, Bispo da Diocese de Baucau, que esteve presente na cerimónia, começou por agradecer em nome da sua diocese e da Fundação São José, de que é presidente, "mas fundamentalmente, em nome dos jovens que um dia venham a beneficiar da escola à qual se destina esta contribuição da Câmara Municipal de Tavira".

Falou do seu jovem País que faz parte da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. "No meu País a Igreja tem um papel importante em vários sectores e um deles é este, o da educação. O interior é bastante abandonado e as escolas que lá existem são fundamentalmente da Igreja", explicou o Prelado, informando que a Diocese de Baucau, através Fundação São José, tem 118 escolas, desde o nível primário ao secundário. "Tem custos enormes. Fazemos um esforço enorme para as manter, embora não tenhamos capacidade para isso, mas como os pais não aceitam que se fechem escolas, nós vamos fazendo «milagres» para as manter abertas. Isto, para que as crianças das montanhas também tenham possibilidades de acesso ao ensino", testemunhou, agradecendo em nome das crianças o apoio da edilidade.

Relembrando ainda que o local escolhido para a obra tinha inicialmente sido outro, evidenciou as dificuldades inerentes a um País que está ainda a dar os primeiros passos e explicou que, por falta de entendimento, entre os vários poderes institucionais "a verba ficou parada". "Este ano surgiu outra oportunidade relacionada com uma escola no Sul da minha diocese, nas montanhas, que tentamos que seja um centro de ensino secundário, pois num raio de 80 kms não há qualquer escola secundária. A verba destina-se a arranjar um pavilhão - a escola já existe - mas não tem condições, por isso, achou-se por bem, aproveitar este dinheiro".

O pavilhão pertenceu a um quartel da tropa portuguesa e, para além do aspecto da preservação do património português, a sua reparação vai dar oportunidade a que se criem melhores condições por exemplo para o ensino da língua portuguesa, explicou D. Basílio do Nascimento. "É algo que vai sendo feito muito devagar, mas se compararmos com dez anos atrás, hoje em dia, a dinâmica do ensino da língua tem outra dimensão", frisou.

"Espero merecer a confiança da Câmara Municipal de Tavira. Vamos fazer a administração do dinheiro e as contas serão apresentadas logo que as obras terminem", prometeu-se o Bispo de Baucau, deixando uma palavra de agradecimento ao padre Miguel Neto que trabalhou em Timor. "A ele se deve esta ligação da Diocese de Baucau a Tavira.

Pela amizade que ele tem com o senhor presidente da Câmara Municipal de Tavira, foi graças a ele que se abriu esta «porta»", reconheceu D. Basílio.

Com Folha do Domingo" (Agência Ecclesia)

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