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Debate: [Timor-Leste] tetum, português, língua indonésia ou inglês

>> 20120422

No Público de hoje, versão para assinantes: Timor-Leste, tetum, português, língua indonésia ou inglês? Por José Ramos-Horta.

Alguns excertos:


O Censo Nacional de 2010 apurou que cerca de 90% da população usa tétum diariamente
"De quando em vez, um jornalista ou académico opina sobre a escolha de línguas oficiais feita por Timor-leste. Victor R. Savage, professor associado de Geografia na Universidade Nacional de Singapura, escrevia recentemente: “A actual eleição presidencial em Timor-leste trouxe visibilidade internacional a este Estado marginalizado do Sudeste Asiático”.  

Já nos chamaram “estado frágil” e “estado falhado”, mas “estado marginalizado” é um novo título que acaba de nos ser concedido. Savage prosseguia, proporcionando-nos a sua opinião académica sobre o que é, em Timor-leste, uma questão simples — as línguas.
Os artigos 13.º e 159.º da nossa Constituição determinam que o tétum e o português são as nossas línguas oficiais e a língua indonésia e inglês são línguas de trabalho. Será possível atitude mais aberta e pragmática do que esta?
A liderança e o povo timorenses, embora ilhéus, têm uma mentalidade voltada para o exterior, aberta a influências culturais, aprendendo e absorvendo o bom (e o mau) que vemos, ouvimos e lemos sobre o mundo. Estamos entre os povos mais poliglotas do mundo. Uma grande percentagem entre nós usa três a cinco idiomas — uma língua local materna, tétum, indonésio, português e inglês.
Aconselho sempre os jovens a terem uma atitude aberta à informação, ao conhecimento de outras culturas e a aprenderem tantas línguas quanto possível. Exorto-os a não terem a atitude provinciana do australiano médio, ou do americano ou britânico, que dominam apenas o inglês.
O número de jovens timorenses a familiarizarem-se com o inglês é crescente. Estima-se que a língua inglesa é entendida por 31,4%. Tem-me impressionado também o número de jovens com alguma fluência em espanhol, coreano, japonês ou chinês, após apenas meses de aprendizagem.
O Censo Nacional de 2010 apurou que cerca de 90% da população usa tétum diariamente. Uns 35% são utilizadores fluentes do indonésio e 23,5% falam, lêem e escrevem português. Este é um número impressionante, quando nos lembramos que menos de 5% dos timorenses dizia compreender português, em 2002.
No seu comentário, Savage pôs em questão a sensatez da política linguística de Timor-leste, sugerindo que devíamos optar pelo inglês, em vez do tétum e do português, ignorando o facto de a nossa Constituição proporcionar a utilização do inglês e do indonésio como línguas de trabalho.
Savage afirma, erradamente, que embora o tétum seja língua oficial, “no terreno, tem-se a impressão de que está a ser dada prioridade ao português por ser a língua de comunicação da elite política e social — em suma, uma língua elitista em Timor-leste. Uma política da língua como esta envolve desafios únicos”.
É óbvio que ou Savage ainda não foi a Timor-leste ou foi lá de passagem — no estilo aterra e descola. As sessões do nosso Parlamento Nacional, do Conselho de Ministros, seminários e conferências, etc. são maioritariamente realizadas em tétum.
A Resistência Timorense, o Governo e a Igreja Católica contribuíram mais do que ninguém para a generalização e modernização do tétum. O facto de o tétum ser hoje falado por perto de 90% é um grande indicador do nosso êxito na construção nacional. Mas o tétum está ainda a caminho de se tornar uma lingua plenamente funcional, perante os desafios da modernidade. Milhares de termos foram tomados de empréstimo do português, alguns do indonésio e do inglês, e creio que o tétum precisa de mais 10/20 anos para se tornar uma língua dinâmica e rica. A língua indonésia também adoptou centenas de palavras do português, em resultado da longa presença colonial no Sudeste Asiático.
Mais 10 anos e teremos metade da nossa população a dominar a língua portuguesa, uma versão local do português, com vivacidade tropical e musicalidade própria, como o português falado no Rio ou em Luanda. O tétum terá o mesmo encanto e colorido, mas estará mais apetrechado para responder a desafios da abertura do país ao mundo. 
Como outros anglófilos, Savage parece acarinhar a visão simplista do inglês a abrir, por si, as Portas do Céu a um Timor-leste pobre, resolvendo problemas sociais e económicos. E, sendo o inglês a chave do futuro de Timor-leste, presumo que será também o caminho da fortuna para os outros países pobres.
Inversamente, nesta linha de raciocínio, aquele académico quererá fazer crer que foi o inglês que catapultou nações como o Japão, Coreia, Alemanha, Itália, França para o estatuto de grandes potências industriais? E como explicar a emergência do Brasil, falante do português, como potência económica global, tomando à velha Inglaterra o lugar de sexta economia mundial? E como explicar o actual estatuto de “estado frágil” atribuído a Estados insulares do Pacífico ou africanos que no passado foram administrados pelo Reino Unido e adoptaram o inglês como língua oficial desde as suas independências?
E os nossos irmãos aborígenes australianos, cuja expectativa média de vida à nascença é 10 anos mais baixa do que em Timor-leste? Não deveriam eles estar muito melhor, após serem colonizados por falantes do inglês durante mais de 200 anos?
Contrariamente à afirmação do académico de Singapura, segundo a qual a nossa decisão de não usar o indonésio teve origem na sensibilidade política da questão, eu afirmo que não temos ressentimentos no que respeita à língua e às culturas da Indonésia.
Eu defendi até que deveremos dar ao indonésio o estatuto de língua oficial, após a necessária avaliação de custos e disponibilidade de professores. 35% do nosso povo fala indonésio, mas nos grupos etários dos 5-10 anos, especialmente em zonas rurais, aquela percentagem é muito menor.
Embora com respeito pelo que parece ser o grande conhecimento do académico sobre a Indonésia e estando reconhecido pelos seus alvitres, Timor-leste e a República Indonésia desfrutam de relações exemplares em todos os campos, graças à visão dos líderes dos nossos dois países, optando por uma abordagem pragmática, olhando para o futuro.
Timor-leste é desde 2005 membro activo do Fórum regional da ASEAN e participou ao longo dos últimos 10 anos em todas as reuniões ministeriais da ASEAN, que reúne os restantes países da nossa região natural e à qual esperamos aderir em breve. Abrimos já embaixadas em cinco Estados da ASEAN e, até 2013, vamos abrilas nos cinco Estados-membros restantes. Temos também representação ao nível de embaixada em Seul, Tóquio e Pequim. Há, por outro lado, 20 embaixadas estrangeiras em Díli. Timor-leste acolhe a presença de grande número de organizações internacionais.
Embora reconhecido a Richard Savage por nos indicar generosamente caminhos para sairmos da “marginalização regional”, atrevo-me a desafiar visões anglo-saxónicas centradas na ideia de que o mundo seria um lugar melhor se nos rendêssemos todos ao inglês.
Os nossos irmãos na Papuásia-nova Guiné, Libéria, Zimbabué, Suazilândia, para referir apenas um pequeno grupo de Estados da Comunidade Britânica, podem, aliás, rejeitar o pressuposto. E franceses, alemães, italianos, suecos poderão discordar também.
O inglês é uma língua importante, quase incontournable, se quisermos aceder a informação científica e tecnológica, ao comércio internacional ou mercados financeiros. Mas o facto de um idioma ter utilidade regional ou global não conduz inevitavelmente à conclusão de devermos abandonar as raízes históricas e culturais e fazê-lo língua oficial.
E ainda que fôssemos persuadidos, por Savage e outros académicos, da “superioridade” da língua inglesa, adoptando-a como língua oficial, enfrentarse-iam desafios quanto a recursos financeiros e humanos exigidos para pôr em prática tal política.
De novo, perguntaria aos meus irmãos da Papuásia-nova Guiné, Libéria, Suazilândia, Zimbabué, África do Sul, etc., se, após a sua experiência de uso do inglês há muitas gerações, essa língua, dir-se-ia milagrosa, os libertou de conflitos sociais e da pobreza.
A sua resposta poderia bem ser: “O inglês é muito útil, dá-nos acesso a informação indispensável ao desenvolvimento, mas em si mesma não é um atalho da pobreza para a prosperidade. Basta ver a situação em que nos encontramos, após gerações de administração pelo Reino Unido e de pertença à Comunidade Britânica.” 
Admito que nem todos somos tão práticos como os nossos irmãos de Singapura. Confesso que somos, na maioria, algo românticos, temos uma perspectiva histórica, porque temos uma longa história, nem sempre nos orientamos exclusivamente pela mentalidade comercial e prática ao estilo de Singapura. Significa isto estarmos condenados a um progresso lento, apenas por termos uma sociedade multilingue e uma cultura multifacetada, vibrante e colorida, que nos inclina a desfrutar mais frequentemente a beleza da vida? Tenho a certeza que não. "

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Info | “Primeiro-Ministro explica a política do Governo sobre as Línguas Maternas no Parlamento Nacional”

>> 20120214



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Primeiro Encontro sobre as Línguas Nacionais de Timor-Leste / Enkontru Dahuluk kona-ba Dalen Nasionál Timor-Leste

>> 20100813

DECLARAÇÃO FINAL DA CONFERÊNCIA

“Primeiro Encontro sobre as Línguas Nacionais de Timor-Leste”

5-6 Agosto, 2010




Os participantes nesta Conferência:

1) Reconhecem o papel único que as línguas locais ou línguas maternas desempenham na definição da identidade e cultura dos leste-timorenses.

2) Afirmam o seu compromisso e vontade de ajudar o Governo e o Estado de Timor-Leste a respeitar as suas obrigações constitucionais de valorizar e desenvolver as línguas nacionais de Timor-Leste, através de:

a) Estabelecimento de Conselhos para a Promoção das Línguas Maternas para cada língua local, que funcionarão como guias e centros de informação para todas as pessoas que se interessem por cada uma destas línguas maternas;

b) Colaboração contínua com o Instituto Nacional de Linguística (INL) e outras autoridades relevantes para o desenvolvimento de materiais, incluindo dicionários, perfis linguísticos, material para alfabetização e documentação audiovisual/escrita das nossas línguas.

3) Apelam ao Governo de Timor-Leste que seja generoso e aumente adequadamente o seu apoio financeiro ao INL enquanto instituição responsável pela protecção e desenvolvimento das línguas de Timor-Leste, incluindo o desenvolvimento de ortografias padronizadas que possam também ser aplicadas para as restantes línguas maternas.

4) Pedem ao Governo de Timor-Leste que considere seriamente o papel das línguas maternas no nosso sistema educativo, principalmente na fase inicial do ensino básico, tendo em atenção os resultados obtidos pela experiência e as boas práticas internacionais que mostram que a língua materna é melhor para ajudar as crianças a desenvolverem as suas competências básicas de literacia.

5) Pedem ao Governo que crie um pacote para o desenvolvimento das línguas nacionais, incluindo um orçamento para a capacitação de recursos humanos.
6 de Agosto de 2010

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DEKLARASAUN KONFERÉNSIA
“Enkontru Dahuluk kona-ba Dalen Nasionál Timor-Leste”

5-6 Agostu, 2010


Partisipante iha Konferénsia ida-ne’e:

1) Rekoñese lian lokál ka lia-inan Timor-Leste nian iha pozisaun úniku atu define Timoroan sira-nia identidade no kultura.

2) Iha kompromisu ka hakarak boot atu tulun Governu no Estadu Timor-Leste hodi respeita obrigasaun ne’ebé define iha Konstituisaun hodi valoriza no dezenvolve Timor-Leste nia lian nasionál sira liuhosi:

a) Estabelese Konsellu ba Promosaun Lian Inan ida ba lian lokál ida-idak hodi sai matadalan no sentru informasaun ba ema hotu-hotu ne’ebé iha interese ba Lian Inan ida-idak;

b) Servisu hamutuk ho Institutu Nasionál Linguístika (INL) no autoridade relevante sira seluk atu dezenvolve materiál sira, inklui disionáriu, perfíl linguístiku, materiál atu dezenvolve literasia no dokumentasaun audiovizuál no hakerek ba ita-nia lian sira.

3) Husu ba Governu Timor-Leste atu, ho vontade di’ak, aumenta ninia apoiu finanseiru natoon ba INL nu’udar instituisaun ne’ebé simu knaar hodi proteje no dezenvolve Timor-Leste nia lian sira, inklui mós dezenvolve ortografia padronizada ne’ebé bele aplika ba lia-inan sira seluk.

4) Husu ba Governu Timor-Leste atu tau matan maka’as ba papél lia-nasionál iha ita-nia nasaun nia sistema edukasaun, liuliu iha fase inisiál ensinu báziku. Konsidera mós rezultadu ne’ebé mosu husi esperiénsia no prátika di’ak iha rai li’ur sira ne’ebé hatudu katak lia-inan maka di’ak liu atu ajuda labarik sira atu dezenvolve nia kapasidade bázika atu lee no hakerek ho di’ak.

5) Husu ba Governu atu kria pakote ba dezenvolvimentu dalen nasionál sira, inklui orsamentu ba kapasitasaun rekursu umanu.

6 Agostu, 2010

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