Dia 8 de Setembro de 1999... os 3 minutos de silêncio... Por Timor
>> 20080908
As sirenes dos bombeiros ouviram-se ininterruptas nesses 3 minutos... parámos por Timor-Leste como nunca parámos por mais nada... TODOS
Não esquecerei estas duas pessoas. O homem da Carris disse: "ai vão parar vão, sim senhor, todos... eu sou da Carris e sei..." e agarrou-se com determinação à bandeira que mais tarde, junto à Embaixada dos EUA criou celeuma para uma certa esquerda que se "esqueceu" ou fez-se esquecida e aproveitar o momento para ter mostrado aos restantes membros permanentes da ONU, dos quais faziam parte e fazem, a China e a Russia, pessoas que se fartaram de mandar piropos. Remata o homem da Carris: "vamos lá!" e fomos. O autocarro da Carris que se aproximava vindo da Av. da Liberdade já não avançou... eram 15h00... o jovem na imagem aproximou-se e pediu-me quase sussurrando: "... posso pegar nessa bandeira?", permitiu-me assim tirar estas imagens... obrigado a ambos...
Esta imagem coloco-a aqui pois é especial, a razão não vem ao caso agora mas tem a ver com a comitiva onde se "extraviou" uma caixa de fotografias, já em 2000. Há sempre uns espertos ou quiçá, uma esperta... Sempre achei interessante a alguém que "rouba fotografias", admito sempre que terá uma especial predilecção pela arte... É só para lembrar... para não esquecer... eu não esqueço.Cerca das 16h20
Durante toda a tarde do cimo daquele prédio foram lançados constantemente papeis e papelinhos, rolos de papel higiénico, tudo o que vinha à mão era material para protesto. No final da tarde percebe-se que esse stock acabou pois eram as páginas amarelas que fluíam nessa altura... aquele ventinho sempre a ajudar e a depositar os protestos em plena embaixada dos EUA, nas árvores, no seu jardim e envolventes. No topo do prédio viam-se gente de gravata e camisa, a causa era a mesma...
Quando cheguei junto da embaixada, pelas 15h45 estava um punhado de gente junto a um 4x4, pareceu-me o ponto polarizador. Nesse momento a descer a rua uma equipa da TVI. A bandeira tinha-a enrodilhada debaixo do braço mas percebia-se claramente o que era e a pergunta surgiu: "É para arder quando?", respondi que não era para arder... Timorenses jovens e alguns de idade junto ao veículo mais acima, foi aí que parei. A conversa foi imediata. Embora com pouca gente no local áquela hora, o ambiente era já de estarrecer. Feitas as apresentações perguntei se havia algo organizado para aquele local. Sim, havia, vinha aí o Cordão Humano por Timor que estaria a ligar as 5 embaixadas dos membros permanentes da ONU em Lisboa ao final da tarde. Então expliquei que trazia aquela bandeira e que a ideia era que ela ficasse de frente para as câmeras de segurança da embaixada o máximo tempo possível. Num salto, um jovem timorense, com os olhos vidrados de lágrimas que certamente lhe tinham saído como se de água se tratasse, agarra-se convulsivamente à bandeira que tenho na mão. Só o consegui abraçar e foi assim que ficámos largos minutos. Ele queria queimá-la ali e agora mas sussurrei-lhe que fazê-lo naquele momento não passaria mensagem nenhuma e não era mais que um mero acto de destruição. Falou-me da morte de familiares, de amigos, de conhecidos. Ele foi-se recompondo, eu também e anuiu. Mais tarde, revezando-se, ele é um dos que vai segurar a bandeira. Hoje não me recordo do seu nome mas sei que um dia ele vai aparecer.A imagem seguinte encontrei-a faz muito tempo na net, mas não consigo localizar exactamente a sua origem, quem a fez... se alguém ajudar chegamos lá.
Pelas 18h00, quando saía da embaixada uma comitiva de alguns nomes sonantes, uma senhora muito idosa "imaculadamente vestida de branco" com uma cruz e um outro jovem timorense agarrado às grades da embaixada que já tinha antes saltado, com o comando da polícia sem agressividade alguma a tentar demovê-lo a sair da posição que não largava e eram essas as atenções da caixinha mágica viradas a esses eventos... surgiu o momento em que se pegou fogo à bandeira norte-americana... às 18h00 em ponto. Sei que as câmeras de filmar que registaram o acto de protesto foram as da embaixada... era exactamente esse o objectivo. O momento foi aquele. Não sinto orgulho em queimar bandeiras, era um acto de protesto pela responsabilidade que aquele país tinha nas atrocidades e nada faziam perante o que se estava a passar em Timor-Leste. O HELP era ao fim e ao cabo o grito... e ainda bem que se gritou. Poucos dias depois, Clinton abriu a boca no sentido que interessava ao Povo Timorense. Valeu a pena sim! Não vi na mão de ninguém nenhuma outra bandeira de qualquer dos outros membros permanentes da ONU... porque terá sido?
Quando tive de sair do local, a visão que ficou para trás foi esta. Não queria ir embora mas tinha que ser. Estavam a chegar ao local milhares de pessoas do Cordão Humano por Timor! As vigílias à noite continuaram a exemplo de outros dias. Regressei à minha terrinha.

Esta é a minha homenagem ao dia 8 de Setembro de 1999 e sobretudo ao Povo Timorense!
nota: fotografias a preto e branco são de antónio josé e-mail. antoniojmm@gmail.com ... pede-se para não "cortarem" ou reenquadrarem... podem usar para fins não comerciais citando a fonte, outras alternativas, contacte.
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