Vídeo amavelmente cedido pelo Exmo. Sr. Secretário de Estado do Conselho de Ministros da RDTL, Dr. Agio Pereira.
Assunto: Educação e Cultura em Timor-Leste.
Data: Novembro de 2009
Autoria: Governo da RDTL 'Pagina do Governo'
Ramos-Horta na hora da despedida a Atul Khare...
>> 20091209
TIMOR-LESTE:
PAZ
DEPOIS DA TEMPESTADE
PAZ
DEPOIS DA TEMPESTADE
Discurso
Pelo Laureado com o Prémio Nobel da Paz,
Presidente José Ramos-Horta,
Na cerimónia de despedida em honra do Representante Especial
Do Secretário-Geral da ONU, Dr. Atul Khare,
No “Salão China” do Palácio Presidente Nicolau Lobato
Díli, 09 de Dezembro de 2009
Excelências
Senhoras e Senhores
Juntamo-nos aqui hoje para nos despedir do Dr. Atul Khare, que serviu durante três longos e intensos anos no nosso País enquanto Representante Especial do Secretário-Geral da ONU (SRSG, nas siglas em inglês).
Anteriormente, de Junho de 2002 a Maio de 2005, o Dr. Atul Khare serviu em Timor-Leste como chefe de gabinete do então SRSG, o Embaixador Kamalesh Sharma e, ainda, como Vice-SRSG durante seis anos de incansável devoção ao nosso Povo, defendendo os ideais da ONU.
Convido assim todos os presentes para, comigo, agradecermos ao Dr. Atul Khare e à sua estimada mulher, a Senhora Vandna Khare, a abnegação, infatigável dedicação e bondade demonstrada ao Povo de Timor-Leste, à minha própria pessoa, a todos os líderes políticos e religiosos, bem como aos responsáveis pelas nossas comunidades e aos dirigentes da sociedade civil.
O Dr. Atul Khare chegou a Díli no dia 17 de Dezembro de 2006, cerca de quatro meses depois de o Conselho de Segurança da ONU ter autorizado uma nova e mais robusta Missão das Nações Unidas para Timor-Leste, a UNMIT.
Então, o pior da crise política e de segurança interna já tinha passado. Contudo, em Dezembro de 2006 persistiam graves desafios; a situação ainda era muito volátil, marcada por violência esporádica, alguma dela com motivações políticas, mas na maioria devida a rivalidades entre grupos de artes marciais e a gangues de jovens. Em 2006, persistiam cerca de 150.000 deslocados dispersos por Díli e também fora da capital; enfrentávamos então o problema potencialmente explosivo dos chamados “peticionários” e dos elementos fortemente armados do grupo do Senhor Alfredo Reinado.
Passados quatro meses de o Conselho de Segurança da ONU ter autorizado a nova missão (Resolução 1704 de 25 de Agosto de 2006), dotada com uma força policial de 1.608 efectivos, 1.070 elementos civis da polícia chegaram a Timor-Leste. Este número incluía uma Unidade Formada de Polícia portuguesa, que fora mandada para Timor-Leste no início de Junho, ao abrigo de um acordo bilateral celebrado entre Timor-Leste e Portugal. Essa unidade transitou para a UNMIT em Agosto de 2006.
Quero fazer aqui uma pausa para prestar o devido tributo a Finn Rieske-Nielsen, responsável pela Missão das Nações Unidas em Timor-Leste nos meses mais difíceis de 2006; ele teve uma presença destemida e incansável, dia e noite durante esses problemáticos dias e semanas. A sua longa experiência em lidar com situações de crise humanitária, tanto em Timor-Leste – onde se manteve perto de sete anos -, como noutras partes do mundo, permitiu-lhe lidar muito bem com o que tinha pela frente.
Antes da chegada da UNPOL a Díli e do seu destacamento para os Distritos, o fardo da assistência às autoridades Timorenses para a restauração da lei e da ordem em Díli caíra sobre as tropas e polícia da Austrália, Nova Zelândia, Malásia e Portugal, que tinham sido enviadas para Timor-Leste entre finais e Maio e princípios de Junho de 2006, em resposta aos apelos formais de líderes Timorenses (1).
Só a Austrália tinha no terreno uma força de 3.000 homens e mulheres, dotados com uma quantidade impressionante de equipamento como sejam viaturas armadas para transporte de pessoal, tanques e helicópteros. Porém, até uma força tão robusta era inadequada e incapaz de parar a violência, de neutralizar os grupos de artes marciais, ou de prevenir o incêndio e pilhagem de centenas de casas, armazéns do Estado e serviços públicos. Este não é o tipo de violência para a qual esteja preparada uma força convencional, em treino e equipamento (2).
Das quatro forças no terreno na segunda metade de 2006, só a GNR estava à altura, treinada e equipada, para lidar com a violência urbana. Mas em termos de capacidade, a GNR estava no limite e também não podia responder eficazmente a todos os incidentes graves que se registavam em qualquer parte da cidade.
A força mecanizada Australiana e soldados de infantaria pesadamente armados, impressionantes quando se deslocavam ruidosamente pelas artérias principais de Díli, poderiam ter sido dissuasores, mas a verdade era, e continua a ser, que forças convencionais, mesmo bem treinadas e equipadas, não são adequadas para prevenir, ou acabar com a violência urbana e com os tumultos sociais nos tortuosos e confusos becos dos subúrbios da cidade.
Sem ter a pretensão de querer estar a escrever História, ou mesmo modestamente a oferecer uma pormenorizada e conclusiva análise sobre a crise de 2006, julgo que poderemos, no entanto, reter algumas questões importantes.
Eu aceito que a crise de 2006 não fosse inevitável. Poderia ter sido prevenida se quem detinha posições de responsabilidade tivesse tratado a tempo dos numerosos problemas detectados e claramente identificados, através de soluções simples e não onerosas que só requeriam mais partilha de informação e um diálogo paciente.
Mas como as tensões e os ressentimentos não foram acautelados, acabaram por ser exacerbados por alguns indivíduos na nossa sociedade, que viram na crise uma oportunidade para aumentarem o seu magro pecúlio.
Nalguns bairros de Díli, a violência gerou-se essencialmente por causa de conflitos pela posse de terras e casas, da parte dos que se criam marginalizados, ou despojados. As raízes deste conflito emergiram na segunda metade da ocupação indonésia e multiplicaram-se a partir de 1999, à medida que cada vez mais pessoas regressavam, ou se aglomeravam em Díli pela primeira vez, todas elas a competir por um bocado de terra, ou por casas abandonadas pelos migrantes Indonésios de partida, ou pelos milhares de Timorenses que tinham fugido quando a sorte mudou.
O conflito teve muito pouco a ver com uma suposta clivagem regional, ética, ou tribal. Mesmo que Timor-Leste pode ser dividido geograficamente em três grandes regiões, nomeadamente as do Leste, Centro e Oeste, estas regiões não correspondem a grupos perfeitamente identificados e com coesão étnica.
A implosão na liderança da PNTL e na sua cadeia de comando, em Díli, em Abril/Maio de 2006, conduziu à ruptura da Lei e da Ordem. Em consequência desta ruptura na cadeia de comando da força policial, o governo viu-se compelido a ordenar a intervenção das F-FDTL em Díli. Mas esta decisão aprofundou a clivagem na cadeia de comando da polícia, entre elementos da polícia e as F-FDTL, e no seio das próprias F-FDTL.
Contudo, tendo a conta a situação que se vivia em Díli a 28 de Abril de 2006 - com a PNTL incapaz, ou sem vontade de actuar para prevenir o ataque ao Palácio do Governo e os que se seguiram em vários pontos da cidade -, julgo que o Governo não tinha outra hipótese senão chamar as F-FDTL.
Devo aqui adiantar que nem todos os oficiais, ou unidades da PNTL em Díli desertaram e não cumpriram o seu dever. Nunca me esquecerei de uma cena pungente no quartel da UIR em Díli, quando os visitei em finais de Maio de 2006. Estavam ali cerca de 40 homens e mulheres, de todas as regiões do País, a chorar em desespero, a sua amargura era visível, porque se sentiam completamente impotentes. Tinham permanecido firmes nos seus postos, mas cheios de receio de serem atacados e escorraçados.
A Academia de Polícia continuou a funcionar apesar de centenas de deslocados estarem alojados no recinto. Até foi realizada naquela altura uma cerimónia de graduação de cadetes. Mérito deve ser reconhecido ao Director da Academia de Polícia, o Senhor Inspector Júlio Hornay, que demonstrou profissionalismo e capacidade de liderança em tempos de crise.
Enquanto alguns elementos da PNTL abandonaram as suas funções nos Distritos e se uniram ao conflito em Díli, a vasta maioria não o fez. Os Serviços de Imigração da PNTL, chefiados pelo Inspector Carlos Jerónimo, também continuaram a funcionar quase sem percalços, ininterruptamente.
O problema básico na PNTL foi o resultante da criação à pressa de uma força, entre 2001 e 2003, com o número de polícias a aumentar significativamente depois de 2003; quem estava no comando parecia mais interessado em números do que na qualidade e não teve em conta todas as consequências devidas à não aplicação de critérios estritos de selecção, ao treino inadequado, à falta de incentivos materiais como sejam salários razoáveis, de equipamento e de infra-estruturas.
Havia uma liderança política muito débil e igualmente uma muito débil liderança policial.
A ONU e os doadores bilaterais terão de se perguntar por que não pensaram em ajudar o Governo Constitucional, providenciando infra-estruturas básicas e equipamento ao embrião da nossa força policial. Além do treino, não é o fornecimento de equipamento básico uma condição sine qua non para levantar o moral, manter o brio e a capacidade de acção de uma força policial?
Quando as F-FDTL foram estacionadas em Díli, havia muito pouca violência, fogo posto ou pilhagens. Havia um medo palpável das F-FDTL e a percepção generalizada de que os elementos das F-FDTL não teriam constrangimentos em usar a força, ou em disparar, foi efectivamente dissuasória.
Enquanto as ISF iam ocupando posições em Díli, em finais de Maio de 2006, tive um debate com o Senhor Major-General Taur Matan Ruak sobre o acertado que seria as F-FDTL saírem de Díli, recolhendo aos quartéis. O general anuiu plenamente e após consultar o então Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas, os soldados das F-FDTL e oficiais voltaram para as casernas em Tasi-Tolu, Hera, Metinaro e Baucau.
Mas quando foi dada a notícia da evacuação das F-FDTL de Díli, o pânico alastrou e o êxodo da cidade começou quase imediatamente, com dezenas de milhar de pessoas a fugirem para o leste, em direcção a Hera, Metinaro, Baucau, etc.
A minha propriedade e a minha casa também foram transformadas em campo de deslocados, porque mandei abrir os portões a quantos quisessem buscar refúgio junto de mim. Muitas centenas de homens desesperados, idosos, mulheres e crianças acamparam no meu terreno durante as semanas seguintes e eu aprendi em primeira mão o que é o drama dos deslocados.
A saída das F-FDTL encorajou os arruaceiros, porque já não havia impedimento para os seus actos, nem motivo para medo. Cresceu uma vaga de incêndios de casas e pilhagens, enquanto as amistosas forças internacionais eram incapazes de impedir a orgia dos incendiários, apesar dos seus melhores esforços.
Estando as F-FDTL em Díli, houve uma campanha concertada e persistente, de alguns sectores, para denegrir os soldados e oficiais das nossas Forças Armadas com alegações de matanças indiscriminadas e massacres em grande escala perpetrados em particular na noite de 28 de Abril de 2006. Mas não apareceu nem uma testemunha ocular, nem um parente de uma das alegadas vítimas. Portanto, não ocorreu qualquer massacre de civis indefesos, ou entre os elementos do grupo dos ditos “peticionários” na noite de 28 de Abril de 2006, ou nas semanas seguintes.
Senhoras e Senhores
Não tenho a intenção de vos oferecer uma detalhada retrospectiva, ou uma reflexão sobre o que aconteceu nos últimos três anos. Talvez o faça quando acabe o meu mandato como Presidente da República.
Mas estando aqui presentes para dizer adeus a um amigo, o Dr. Atul Khare e a sua estimada mulher, a Senhora Vandna Khare, quero simplesmente recordar a todos onde estávamos em 2003, reflectir sobre algumas das principais causas da crise de 2006, e chamar a atenção para onde estamos agora, hoje, em Timor-Leste, que se afastou depressa e bem da recente violência e está a atravessar o seu melhor período de paz e de crescimento económico.
Quando assumi o cargo, em Maio de 2007, estipulei como prioridades da minha Presidência a restauração da paz e da segurança, a reforma do sector da segurança e o alívio da pobreza.
No que respeita à reforma do sector da segurança, a minha preocupação era a de que a visão da liderança Timorense fosse unificada e ficasse coesa. Criei um Fórum de Alto Nível que compreende o Chefe de Estado, o Primeiro-Ministro e o Presidente do Parlamento Nacional. Instituí um Grupo para a Revisão do Sector da Segurança no meu gabinete, com ligação às agências governamentais e à UNMIT. O trabalho desta equipa e o do Governo tem ido ao pormenor, tem sido exaustivo e conclusivo.
O Conselho de Segurança da ONU irá rever a situação em Timor-Leste na sua reunião de Fevereiro de 2010. E porque o Dr. Atur Khare nos vai deixar, quero que todos saibam dos nossos pontos de vista e preferências para os próximos dois a três anos, no que respeita ao papel UNMIT/UNPOL e da ISF.
O que vos vou revelar decorre da revisão exaustiva feita pela minha equipa para a Reforma do Sector da Segurança, dos encontros regulares mantidos com o Primeiro-Ministro e com os seus dois Secretários de Estado com responsabilidades no sector, com o Presidente do Parlamento Nacional e com os Membros da Comissão-B do PN, com o Major-General Taur Matan Ruak e com o Comandante-Geral da PNTL, Dr. Longuinhos Monteiro.
Como sabem, convoquei muitos encontros no decurso do ano com o Conselho de Estado e com o Conselho Superior de Defesa e Segurança e, em Outubro, procedi a uma consulta com as partes interessadas, depois de lhes mandar um detalhado questionário com o objectivo de recolher as suas análises e respostas.
Face ao exposto, quero declarar o seguinte:
1 – Os Timorenses e a sua liderança estão em dívida e agradecidos aos povos e dirigentes da Austrália, Malásia, Nova Zelândia e Portugal, que rapidamente responderam ao nosso pedido de assistência, quando foi preciso, em finais de Abril de 2006;
2 – O contributo das quatro forças foi nuclear na ajuda prestada para conter a violência em 2006, e para devolver aos cidadãos a paz e a segurança;
3 – O Povo Timorense e os seus líderes estão reconhecidos e em dívida para com a ONU, em particular para com o Secretário-Geral e para com o Conselho de Segurança, por terem respondido sem hesitações à nossa Nação em tempos de dificuldade extrema.
Chegados ao termo de 2009, propomos as seguintes metas para 2010:
1 – Que a plena responsabilidade pela Lei e pela Ordem no Distrito de Díli seja devolvida às autoridades Timorenses até Junho de 2010, com a passagem do testemunho policial da UNPOL para a PNTL;
2 – As Unidades Formadas de Polícia no quadro da UNPOL actualmente destacadas em Díli devem ser reduzidas à metade e destacadas para Baucau e Maliana, deixando apenas cada uma um pelotão na capital do País, para dar assistência aos programas de treino e apoio à PNTL;
3 – A passagem de testemunho das responsabilidades policiais da UNPOL para a PNTL nos Distritos onde ainda não foi feita tem de estar concluída até Dezembro de 2010;
4 – As unidades da UNPOL em cada Distrito e Sub-Distrito compreendidas na redução de forças decidida pela ONU deveriam continuar a prestar toda a assistência requerida pela parte Timorense, nomeadamente para orientação e apoio à administração e gestão, monitorização contínua e treino. Porém, tal como em Díli, os elementos da UNPOL já não poderão fazer patrulhas móveis e intervir, a não ser quando necessário;
5 – O ano de 2011 terá de ser o da consolidação dos processos de revisão e reforma, correcção e melhoramento em todos os aspectos;
6 – O Governo terá de garantir que em finais de 2011 todos os requisitos da infra-estrutura e logística básica da PNTL e das F-FDTL estejam preenchidos;
7 – Caberá às Nações Unidas decidir o ritmo e o volume da redução dos contingentes policiais em Timor-Leste, entre 2010 e 2012.
No que respeita à ISF, no seguimento dos meus encontros habituais com os Embaixadores da Austrália e da Nova Zelândia, bem como com os comandantes da ISF, em consonância com o nosso desejo esta força terá a sua missão substancialmente reduzida e com nova orientação, em 2010:
- De agora até ao final de Dezembro, a ISF reduzirá o número dos seus efectivos em aproximadamente uma companhia;
- A ISF deverá retirar-se da sua base avançada de operações em Baucau;
- A ISF assegurará uma presença permanente em Díli e Gleno;
- A ISF continuará a trabalhar com as F-FDTL, garantindo presença nos Distritos, através de patrulhas, para estar em contacto com a população e monitorizar o ambiente de segurança.
A ISF continuará em Díli. Porém, esperamos que a ISF coloque mais ênfase no acompanhamento das comunidades e não efectue patrulhas de segurança. É preferível que não vejamos muito armamento pesado e militares na nossa cidade.
Espero que estas actividades sejam planeadas em consultas com as nossas autoridades competentes, nomeadamente os dois Secretários de Estado e o Comandante-Geral da PNTL, incluindo também os chefes de “suku” locais.
Terão notado, os presentes, que a Guarda de Honra neste Palácio Presidencial é feita por guerreiros tradicionais e pela nossa segurança civil, desarmada. Os portões do Palácio Presidencial estão em geral abertos e dentro dos seus muros há um jardim infantil cheio de vida. Também terão notado que há uma parcela no jardim presidencial coberta por internet sem fios e aberta ao público. E como podem ver, sinto-me muito confortável com tão pouca segurança, ou até nenhuma.
Sinto-me confortável com o caminho empreendido pela ISF e muito confiante na sua capacidade para corresponder às necessidades tanto do Governo, como do Povo de Timor-Leste.
As mudanças de que venho falando são de certo modo subtis e resultam das aturadas consultas entre o nosso Governo, os Governos Australiano e Neo-Zelandês, e a ISF. Mas o mais importante é que estas mudanças põem em destaque os significativos progressos por nós realizados no sector da segurança desde 2006. Acredito que as mudanças chegam na altura certa, reflectem os progressos feitos no nosso sector de segurança, sem excluir que ainda há trabalho por fazer, e que a ISF e a UNMIT continuarão connosco até 2012.
Como já disse, no auge da crise de 2006 a ISF tinha mais de 3.000 efectivos destacados em Timor-Leste. Este número cairá para menos de 600 em 2010, reflectindo os enormes progressos ocorridos no sector da segurança nacional.
Enquanto avança o processo de reforma nas duas agências de segurança, que deverá estar concluído em finais de 2011, será preciso manter uma pequena, mas robusta força no terreno.
Temos dois anos para empreender grandes esforços e alcançar notáveis progressos na transferência de competências e na capacitação em cada área, e também para dar às nossas forças os meios razoáveis necessários para manterem o seu moral, auto-estima, auto-confiança e eficiência.
Timor-Leste é um País do Sudeste Asiático, intrincada e orgulhosamente ligado a esta dinâmica região. Espero que o Governo explore as oportunidades para melhorar a segurança regional e a cooperação no sector da defesa, com amigos e vizinhos como a Indonésia, a Malásia, Singapura, Tailândia, Filipinas, Austrália e Nova Zelândia, em áreas que vão desde o treino policial e militar, aos exercícios conjuntos, formação em serviços de informação e partilha de dados, segurança marítima, etc.
Se Timor-Leste quiser participar futuramente em qualquer missão humanitária, ou de manutenção de paz no estrangeiro, acho que o deverá fazer no quadro regional, sob uma estrutura e um comando regionais.
Por isso acredito que nos teremos de empenhar para envolver mais os nossos vizinhos nos sectores de defesa e segurança, para aprender e melhorar o nosso ajustamento e adaptação à região.
Estou muito satisfeito com os progressos registados pela nossa cooperação no sector da defesa com Portugal, um amigo distante, mas leal.
A recente visita ao nosso país de um grupo de 2.000 fuzileiros norte-americanos teve grande êxito e foi alvo de imensa simpatia popular. Pela sua presença e actividades desenvolvidas, os U. S. Sea Bees – “Abelhas do Mar” – são um dos melhores exemplos do ideal da cooperação bilateral no sector da defesa, abrangendo as vertentes militar e civil, por prestarem a tão necessária assistência às comunidades locais. Timor-Leste deseja um incremento desta frutuosa relação com os Estados Unidos.
Timor-Leste tem de se aguentar por si próprio. Não podemos continuar dependentes de amigos e vizinhos, ou da ONU para ver garantida a nossa segurança interna, a paz e a estabilidade. A comunidade internacional e a ONU foram sempre simpáticas e generosas, contribuindo com mais recursos per capita para esta pequena Nação do que para nenhuma outra no mundo.
Não será preciso dizer que nem todos estes recursos foram aplicados criteriosamente e em benefício dos mais carenciados, que são a maioria dos pobres. Todavia, não poderemos negar esta extraordinária boa vontade por parte da comunidade internacional. E tenhamos presente que há muitas comunidades e nações em todo o mundo ainda com maiores dificuldades e carências do que nós.
Nós não somos os eleitos de Deus, ou da ONU. Até Deus abandona os seus filhos e filhas que vivem em conflito permanente e em pecado. Portanto, mais facilmente a comunidade internacional desistiria se os líderes Timorenses, os políticos, os da sociedade civil, religiosa, académica, ou do sector privado, não percorrerem metade do caminho que os separa uns dos outros para, juntos, contribuírem para aliviar o nosso povo da extrema pobreza, dando-lhes a paz e a tranquilidade que tanto deseja e merece.
Quando em Fevereiro falei no Conselho de Segurança das Nações Unidas, prometi ao Secretário-Geral e a este órgão que a UNMIT será a última missão da ONU em Timor-Leste; disse ao nosso bom amigo o Secretário-Geral Ban Ki-moon que, quando terminar o seu actual mandato e iniciar o segundo, em 2012, Timor-Leste estará em paz e relativa prosperidade. Então, ele poderá pensar em Timor-Leste como um problema resolvido.
Enquanto alguns pseudo-intelectuais e jornalistas medíocres insistem em que Timor-Leste é um Estado falhado, eu digo, com a sabedoria de quem teve uma vida intensa e rica, e foi testemunha de triunfos e sobrevivente de tragédias: Timor-Leste está no bom caminho. Recuperámos da crise de 2006; depois de anos de estagnação, ou lento crescimento, a nossa economia registou um crescimento real de 12,7 por cento em 2008 e, de novo, de quase dois dígitos este ano. O País está em paz. Vemos sorrisos permanentemente, e alegria nos rostos e nos olhos das pessoas, sobretudo nos das nossas mulheres e crianças, o grupo mais vulnerável: Díli é uma cidade em crescimento exponencial, para o melhor e para o pior.
Há uma fé renovada na liderança política e nas instituições, de acordo com uma sondagem independente realizada há um ano pelo International Republic Institute, dos Estados Unidos, que dá ao Governo uma nota muito alta e ao Primeiro-Ministro uma margem de aprovação de 80 por cento; as F-FDTL e a PNTL obtiveram uma percentagem semelhante. A todos dou os mais sinceros parabéns.
Dr. Atul Khare, ao partir de Timor-Leste, fique seguro de que a UNMIT, sob a sua liderança, deu uma significativa contribuição para o bem-estar generalizado do nosso Povo, para o clima de paz e segurança em que hoje se vive no nosso País. A sua excelência profissional, humildade e honestidade, a sua sabedoria acumulada, com milhares de anos, vinda de uma antiga civilização, fê-lo querido de todos e merecedor da nossa confiança.
Como enviado da ONU, ou diplomata de um país, considero que quem é investido de uma missão para representar uma instituição, ou o seu próprio país, se quiser ter êxito tem de ser capaz de ganhar o respeito e a confiança da comunidade de acolhimento e dos seus líderes, através da discrição, humildade, honestidade e trabalho duro. O Senhor triunfou.
A si, meu amigo, Dr. Atul Khare, e Senhora Vandna Khare, não direi adeus, porque nos voltaremos a ver uma e outra vez. Desejo-lhe boa saúde, felicidade e prosperidade nos anos vindouros. Desejo ao seu grande país, a Índia, berço do imortal Mahatma Gandhi, paz e prosperidade. Possam os dirigentes indianos ser ungidos da sua antiga, rica e benevolente civilização para ajudar a levar a paz ao Sudeste Asiático e a toda a Ásia.
FIM
________________________________________________
(1) O Presidente Xanana Gusmão, o Primeiro-Ministro Mari Alkatiri e o Presidente do Parlamento Nacional, Francisco Guterres “Luo Olo”, escreveram cartas aos Primeiros-Ministros da Austrália, Nova Zelândia, Malásia e Portugal para os informar que a República Democrática de Timor-Leste pedia urgentemente assistência militar e da polícia. A 24 e 25 de Maio, a Austrália, Nova Zelândia e Portugal mandaram cartas ao Presidente do Conselho de Segurança e ao Secretário-Geral das Nações Unidas assegurando prontidão para o envio de forças de defesa e segurança para Timor-Leste, com o objectivo de dar assistência para a restauração da estabilidade, conforme o pedido do Governo de Timor-Leste. A 25 de Maio houve ainda uma troca de cartas entre Timor-Leste e a Austrália, convidando este país a mandar forças armadas para ajudar Timor-Leste. No dia seguinte foi celebrado um Acordo sobre o Estatuto das Forças, definindo os seus ”objectivos, direitos e privilégios”. O objectivo do destacamento da ISF era: a) dar assistência a Timor-Leste para a restauração da segurança, confiança e paz, compreendendo a reposição e manutenção da ordem pública; b) dar assistência à segurança e protecção de pessoas e propriedades em Timor-Leste, e supervisionar as ocorrências violentas e intimidatórias; c) se necessário, dar assistência para a evacuação de cidadãos Australianos e de terceiros países, incluindo pessoal das Nações Unidas; d) a pedido da UNOTIL, dar protecção e apoio a esta missão, substituindo-se nas suas tarefas; e) facilitar operações de assistência humanitária. A 26 de Maio, forças internacionais recém-chegadas fizeram a segurança no perímetro do aeroporto e em outras instalações sensíveis, incluindo a da UNOTIL, onde se refugiavam muitos Timorenses.
(2) A Força Internacional de Estabilização, liderada pelo Comandante Australiano Brigadeiro-General Michael Slater, foi formada por tropas da Austrália, Nova Zelândia e Malásia; integrava, ainda, uma companhia de reacção rápida da polícia Portuguesa com 140 elementos; ao todo, era constituída por 3.500 efectivos. A contribuição dada no auge da crise de 2006 é assim resumida:
Austrália – 3.000 efectivos: Brigada de Infantaria da Força de Defesa Australiana com 1 x Batalhão de Infantaria, mais duas companhias de infantaria, Esquadrão de Comando, Esquadrão de Engenharia no terreno, apoio armado (33 viaturas armadas para transporte de pessoal), apoio aéreo (8 x helicópteros Blackhawk, 4 x helicópteros Kiowa e reabastecimentos diários assegurados por um avião Hércules), apoio aos Serviços de Combate (logística, transporte, administração, etc.); presença da Marinha Real Australiana (3 navios).
Destacamento Internacional da Força de Reacção Rápida da Polícia Australiana, com 200efectivos aproximadamente, incluindo equipas “especiais”.
Nova Zelândia - 200 soldados
Força de Defesa da Nova Zelândia – Presentes, na maioria, tropas de Infantaria, com elementos suplementares para apoio.
Malásia - 300 soldados
Forças Armadas da Malásia - 300 comandos da 10/a Brigada de Pára-quedistas, incluindo viaturas armadas para transporte de pessoal. Presença da Marinha Real da Malásia (rotação de unidades navais no porto de Díli).
Portugal – 140 polícias GNR, com um total de 51 viaturas, seis delas APCs.
Pelo Laureado com o Prémio Nobel da Paz,
Presidente José Ramos-Horta,
Na cerimónia de despedida em honra do Representante Especial
Do Secretário-Geral da ONU, Dr. Atul Khare,
No “Salão China” do Palácio Presidente Nicolau Lobato
Díli, 09 de Dezembro de 2009
Excelências
Senhoras e Senhores
Juntamo-nos aqui hoje para nos despedir do Dr. Atul Khare, que serviu durante três longos e intensos anos no nosso País enquanto Representante Especial do Secretário-Geral da ONU (SRSG, nas siglas em inglês).
Anteriormente, de Junho de 2002 a Maio de 2005, o Dr. Atul Khare serviu em Timor-Leste como chefe de gabinete do então SRSG, o Embaixador Kamalesh Sharma e, ainda, como Vice-SRSG durante seis anos de incansável devoção ao nosso Povo, defendendo os ideais da ONU.
Convido assim todos os presentes para, comigo, agradecermos ao Dr. Atul Khare e à sua estimada mulher, a Senhora Vandna Khare, a abnegação, infatigável dedicação e bondade demonstrada ao Povo de Timor-Leste, à minha própria pessoa, a todos os líderes políticos e religiosos, bem como aos responsáveis pelas nossas comunidades e aos dirigentes da sociedade civil.
O Dr. Atul Khare chegou a Díli no dia 17 de Dezembro de 2006, cerca de quatro meses depois de o Conselho de Segurança da ONU ter autorizado uma nova e mais robusta Missão das Nações Unidas para Timor-Leste, a UNMIT.
Então, o pior da crise política e de segurança interna já tinha passado. Contudo, em Dezembro de 2006 persistiam graves desafios; a situação ainda era muito volátil, marcada por violência esporádica, alguma dela com motivações políticas, mas na maioria devida a rivalidades entre grupos de artes marciais e a gangues de jovens. Em 2006, persistiam cerca de 150.000 deslocados dispersos por Díli e também fora da capital; enfrentávamos então o problema potencialmente explosivo dos chamados “peticionários” e dos elementos fortemente armados do grupo do Senhor Alfredo Reinado.
Passados quatro meses de o Conselho de Segurança da ONU ter autorizado a nova missão (Resolução 1704 de 25 de Agosto de 2006), dotada com uma força policial de 1.608 efectivos, 1.070 elementos civis da polícia chegaram a Timor-Leste. Este número incluía uma Unidade Formada de Polícia portuguesa, que fora mandada para Timor-Leste no início de Junho, ao abrigo de um acordo bilateral celebrado entre Timor-Leste e Portugal. Essa unidade transitou para a UNMIT em Agosto de 2006.
Quero fazer aqui uma pausa para prestar o devido tributo a Finn Rieske-Nielsen, responsável pela Missão das Nações Unidas em Timor-Leste nos meses mais difíceis de 2006; ele teve uma presença destemida e incansável, dia e noite durante esses problemáticos dias e semanas. A sua longa experiência em lidar com situações de crise humanitária, tanto em Timor-Leste – onde se manteve perto de sete anos -, como noutras partes do mundo, permitiu-lhe lidar muito bem com o que tinha pela frente.
Antes da chegada da UNPOL a Díli e do seu destacamento para os Distritos, o fardo da assistência às autoridades Timorenses para a restauração da lei e da ordem em Díli caíra sobre as tropas e polícia da Austrália, Nova Zelândia, Malásia e Portugal, que tinham sido enviadas para Timor-Leste entre finais e Maio e princípios de Junho de 2006, em resposta aos apelos formais de líderes Timorenses (1).
Só a Austrália tinha no terreno uma força de 3.000 homens e mulheres, dotados com uma quantidade impressionante de equipamento como sejam viaturas armadas para transporte de pessoal, tanques e helicópteros. Porém, até uma força tão robusta era inadequada e incapaz de parar a violência, de neutralizar os grupos de artes marciais, ou de prevenir o incêndio e pilhagem de centenas de casas, armazéns do Estado e serviços públicos. Este não é o tipo de violência para a qual esteja preparada uma força convencional, em treino e equipamento (2).
Das quatro forças no terreno na segunda metade de 2006, só a GNR estava à altura, treinada e equipada, para lidar com a violência urbana. Mas em termos de capacidade, a GNR estava no limite e também não podia responder eficazmente a todos os incidentes graves que se registavam em qualquer parte da cidade.
A força mecanizada Australiana e soldados de infantaria pesadamente armados, impressionantes quando se deslocavam ruidosamente pelas artérias principais de Díli, poderiam ter sido dissuasores, mas a verdade era, e continua a ser, que forças convencionais, mesmo bem treinadas e equipadas, não são adequadas para prevenir, ou acabar com a violência urbana e com os tumultos sociais nos tortuosos e confusos becos dos subúrbios da cidade.
Sem ter a pretensão de querer estar a escrever História, ou mesmo modestamente a oferecer uma pormenorizada e conclusiva análise sobre a crise de 2006, julgo que poderemos, no entanto, reter algumas questões importantes.
Eu aceito que a crise de 2006 não fosse inevitável. Poderia ter sido prevenida se quem detinha posições de responsabilidade tivesse tratado a tempo dos numerosos problemas detectados e claramente identificados, através de soluções simples e não onerosas que só requeriam mais partilha de informação e um diálogo paciente.
Mas como as tensões e os ressentimentos não foram acautelados, acabaram por ser exacerbados por alguns indivíduos na nossa sociedade, que viram na crise uma oportunidade para aumentarem o seu magro pecúlio.
Nalguns bairros de Díli, a violência gerou-se essencialmente por causa de conflitos pela posse de terras e casas, da parte dos que se criam marginalizados, ou despojados. As raízes deste conflito emergiram na segunda metade da ocupação indonésia e multiplicaram-se a partir de 1999, à medida que cada vez mais pessoas regressavam, ou se aglomeravam em Díli pela primeira vez, todas elas a competir por um bocado de terra, ou por casas abandonadas pelos migrantes Indonésios de partida, ou pelos milhares de Timorenses que tinham fugido quando a sorte mudou.
O conflito teve muito pouco a ver com uma suposta clivagem regional, ética, ou tribal. Mesmo que Timor-Leste pode ser dividido geograficamente em três grandes regiões, nomeadamente as do Leste, Centro e Oeste, estas regiões não correspondem a grupos perfeitamente identificados e com coesão étnica.
A implosão na liderança da PNTL e na sua cadeia de comando, em Díli, em Abril/Maio de 2006, conduziu à ruptura da Lei e da Ordem. Em consequência desta ruptura na cadeia de comando da força policial, o governo viu-se compelido a ordenar a intervenção das F-FDTL em Díli. Mas esta decisão aprofundou a clivagem na cadeia de comando da polícia, entre elementos da polícia e as F-FDTL, e no seio das próprias F-FDTL.
Contudo, tendo a conta a situação que se vivia em Díli a 28 de Abril de 2006 - com a PNTL incapaz, ou sem vontade de actuar para prevenir o ataque ao Palácio do Governo e os que se seguiram em vários pontos da cidade -, julgo que o Governo não tinha outra hipótese senão chamar as F-FDTL.
Devo aqui adiantar que nem todos os oficiais, ou unidades da PNTL em Díli desertaram e não cumpriram o seu dever. Nunca me esquecerei de uma cena pungente no quartel da UIR em Díli, quando os visitei em finais de Maio de 2006. Estavam ali cerca de 40 homens e mulheres, de todas as regiões do País, a chorar em desespero, a sua amargura era visível, porque se sentiam completamente impotentes. Tinham permanecido firmes nos seus postos, mas cheios de receio de serem atacados e escorraçados.
A Academia de Polícia continuou a funcionar apesar de centenas de deslocados estarem alojados no recinto. Até foi realizada naquela altura uma cerimónia de graduação de cadetes. Mérito deve ser reconhecido ao Director da Academia de Polícia, o Senhor Inspector Júlio Hornay, que demonstrou profissionalismo e capacidade de liderança em tempos de crise.
Enquanto alguns elementos da PNTL abandonaram as suas funções nos Distritos e se uniram ao conflito em Díli, a vasta maioria não o fez. Os Serviços de Imigração da PNTL, chefiados pelo Inspector Carlos Jerónimo, também continuaram a funcionar quase sem percalços, ininterruptamente.
O problema básico na PNTL foi o resultante da criação à pressa de uma força, entre 2001 e 2003, com o número de polícias a aumentar significativamente depois de 2003; quem estava no comando parecia mais interessado em números do que na qualidade e não teve em conta todas as consequências devidas à não aplicação de critérios estritos de selecção, ao treino inadequado, à falta de incentivos materiais como sejam salários razoáveis, de equipamento e de infra-estruturas.
Havia uma liderança política muito débil e igualmente uma muito débil liderança policial.
A ONU e os doadores bilaterais terão de se perguntar por que não pensaram em ajudar o Governo Constitucional, providenciando infra-estruturas básicas e equipamento ao embrião da nossa força policial. Além do treino, não é o fornecimento de equipamento básico uma condição sine qua non para levantar o moral, manter o brio e a capacidade de acção de uma força policial?
Quando as F-FDTL foram estacionadas em Díli, havia muito pouca violência, fogo posto ou pilhagens. Havia um medo palpável das F-FDTL e a percepção generalizada de que os elementos das F-FDTL não teriam constrangimentos em usar a força, ou em disparar, foi efectivamente dissuasória.
Enquanto as ISF iam ocupando posições em Díli, em finais de Maio de 2006, tive um debate com o Senhor Major-General Taur Matan Ruak sobre o acertado que seria as F-FDTL saírem de Díli, recolhendo aos quartéis. O general anuiu plenamente e após consultar o então Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas, os soldados das F-FDTL e oficiais voltaram para as casernas em Tasi-Tolu, Hera, Metinaro e Baucau.
Mas quando foi dada a notícia da evacuação das F-FDTL de Díli, o pânico alastrou e o êxodo da cidade começou quase imediatamente, com dezenas de milhar de pessoas a fugirem para o leste, em direcção a Hera, Metinaro, Baucau, etc.
A minha propriedade e a minha casa também foram transformadas em campo de deslocados, porque mandei abrir os portões a quantos quisessem buscar refúgio junto de mim. Muitas centenas de homens desesperados, idosos, mulheres e crianças acamparam no meu terreno durante as semanas seguintes e eu aprendi em primeira mão o que é o drama dos deslocados.
A saída das F-FDTL encorajou os arruaceiros, porque já não havia impedimento para os seus actos, nem motivo para medo. Cresceu uma vaga de incêndios de casas e pilhagens, enquanto as amistosas forças internacionais eram incapazes de impedir a orgia dos incendiários, apesar dos seus melhores esforços.
Estando as F-FDTL em Díli, houve uma campanha concertada e persistente, de alguns sectores, para denegrir os soldados e oficiais das nossas Forças Armadas com alegações de matanças indiscriminadas e massacres em grande escala perpetrados em particular na noite de 28 de Abril de 2006. Mas não apareceu nem uma testemunha ocular, nem um parente de uma das alegadas vítimas. Portanto, não ocorreu qualquer massacre de civis indefesos, ou entre os elementos do grupo dos ditos “peticionários” na noite de 28 de Abril de 2006, ou nas semanas seguintes.
Senhoras e Senhores
Não tenho a intenção de vos oferecer uma detalhada retrospectiva, ou uma reflexão sobre o que aconteceu nos últimos três anos. Talvez o faça quando acabe o meu mandato como Presidente da República.
Mas estando aqui presentes para dizer adeus a um amigo, o Dr. Atul Khare e a sua estimada mulher, a Senhora Vandna Khare, quero simplesmente recordar a todos onde estávamos em 2003, reflectir sobre algumas das principais causas da crise de 2006, e chamar a atenção para onde estamos agora, hoje, em Timor-Leste, que se afastou depressa e bem da recente violência e está a atravessar o seu melhor período de paz e de crescimento económico.
Quando assumi o cargo, em Maio de 2007, estipulei como prioridades da minha Presidência a restauração da paz e da segurança, a reforma do sector da segurança e o alívio da pobreza.
No que respeita à reforma do sector da segurança, a minha preocupação era a de que a visão da liderança Timorense fosse unificada e ficasse coesa. Criei um Fórum de Alto Nível que compreende o Chefe de Estado, o Primeiro-Ministro e o Presidente do Parlamento Nacional. Instituí um Grupo para a Revisão do Sector da Segurança no meu gabinete, com ligação às agências governamentais e à UNMIT. O trabalho desta equipa e o do Governo tem ido ao pormenor, tem sido exaustivo e conclusivo.
O Conselho de Segurança da ONU irá rever a situação em Timor-Leste na sua reunião de Fevereiro de 2010. E porque o Dr. Atur Khare nos vai deixar, quero que todos saibam dos nossos pontos de vista e preferências para os próximos dois a três anos, no que respeita ao papel UNMIT/UNPOL e da ISF.
O que vos vou revelar decorre da revisão exaustiva feita pela minha equipa para a Reforma do Sector da Segurança, dos encontros regulares mantidos com o Primeiro-Ministro e com os seus dois Secretários de Estado com responsabilidades no sector, com o Presidente do Parlamento Nacional e com os Membros da Comissão-B do PN, com o Major-General Taur Matan Ruak e com o Comandante-Geral da PNTL, Dr. Longuinhos Monteiro.
Como sabem, convoquei muitos encontros no decurso do ano com o Conselho de Estado e com o Conselho Superior de Defesa e Segurança e, em Outubro, procedi a uma consulta com as partes interessadas, depois de lhes mandar um detalhado questionário com o objectivo de recolher as suas análises e respostas.
Face ao exposto, quero declarar o seguinte:
1 – Os Timorenses e a sua liderança estão em dívida e agradecidos aos povos e dirigentes da Austrália, Malásia, Nova Zelândia e Portugal, que rapidamente responderam ao nosso pedido de assistência, quando foi preciso, em finais de Abril de 2006;
2 – O contributo das quatro forças foi nuclear na ajuda prestada para conter a violência em 2006, e para devolver aos cidadãos a paz e a segurança;
3 – O Povo Timorense e os seus líderes estão reconhecidos e em dívida para com a ONU, em particular para com o Secretário-Geral e para com o Conselho de Segurança, por terem respondido sem hesitações à nossa Nação em tempos de dificuldade extrema.
Chegados ao termo de 2009, propomos as seguintes metas para 2010:
1 – Que a plena responsabilidade pela Lei e pela Ordem no Distrito de Díli seja devolvida às autoridades Timorenses até Junho de 2010, com a passagem do testemunho policial da UNPOL para a PNTL;
2 – As Unidades Formadas de Polícia no quadro da UNPOL actualmente destacadas em Díli devem ser reduzidas à metade e destacadas para Baucau e Maliana, deixando apenas cada uma um pelotão na capital do País, para dar assistência aos programas de treino e apoio à PNTL;
3 – A passagem de testemunho das responsabilidades policiais da UNPOL para a PNTL nos Distritos onde ainda não foi feita tem de estar concluída até Dezembro de 2010;
4 – As unidades da UNPOL em cada Distrito e Sub-Distrito compreendidas na redução de forças decidida pela ONU deveriam continuar a prestar toda a assistência requerida pela parte Timorense, nomeadamente para orientação e apoio à administração e gestão, monitorização contínua e treino. Porém, tal como em Díli, os elementos da UNPOL já não poderão fazer patrulhas móveis e intervir, a não ser quando necessário;
5 – O ano de 2011 terá de ser o da consolidação dos processos de revisão e reforma, correcção e melhoramento em todos os aspectos;
6 – O Governo terá de garantir que em finais de 2011 todos os requisitos da infra-estrutura e logística básica da PNTL e das F-FDTL estejam preenchidos;
7 – Caberá às Nações Unidas decidir o ritmo e o volume da redução dos contingentes policiais em Timor-Leste, entre 2010 e 2012.
No que respeita à ISF, no seguimento dos meus encontros habituais com os Embaixadores da Austrália e da Nova Zelândia, bem como com os comandantes da ISF, em consonância com o nosso desejo esta força terá a sua missão substancialmente reduzida e com nova orientação, em 2010:
- De agora até ao final de Dezembro, a ISF reduzirá o número dos seus efectivos em aproximadamente uma companhia;
- A ISF deverá retirar-se da sua base avançada de operações em Baucau;
- A ISF assegurará uma presença permanente em Díli e Gleno;
- A ISF continuará a trabalhar com as F-FDTL, garantindo presença nos Distritos, através de patrulhas, para estar em contacto com a população e monitorizar o ambiente de segurança.
A ISF continuará em Díli. Porém, esperamos que a ISF coloque mais ênfase no acompanhamento das comunidades e não efectue patrulhas de segurança. É preferível que não vejamos muito armamento pesado e militares na nossa cidade.
Espero que estas actividades sejam planeadas em consultas com as nossas autoridades competentes, nomeadamente os dois Secretários de Estado e o Comandante-Geral da PNTL, incluindo também os chefes de “suku” locais.
Terão notado, os presentes, que a Guarda de Honra neste Palácio Presidencial é feita por guerreiros tradicionais e pela nossa segurança civil, desarmada. Os portões do Palácio Presidencial estão em geral abertos e dentro dos seus muros há um jardim infantil cheio de vida. Também terão notado que há uma parcela no jardim presidencial coberta por internet sem fios e aberta ao público. E como podem ver, sinto-me muito confortável com tão pouca segurança, ou até nenhuma.
Sinto-me confortável com o caminho empreendido pela ISF e muito confiante na sua capacidade para corresponder às necessidades tanto do Governo, como do Povo de Timor-Leste.
As mudanças de que venho falando são de certo modo subtis e resultam das aturadas consultas entre o nosso Governo, os Governos Australiano e Neo-Zelandês, e a ISF. Mas o mais importante é que estas mudanças põem em destaque os significativos progressos por nós realizados no sector da segurança desde 2006. Acredito que as mudanças chegam na altura certa, reflectem os progressos feitos no nosso sector de segurança, sem excluir que ainda há trabalho por fazer, e que a ISF e a UNMIT continuarão connosco até 2012.
Como já disse, no auge da crise de 2006 a ISF tinha mais de 3.000 efectivos destacados em Timor-Leste. Este número cairá para menos de 600 em 2010, reflectindo os enormes progressos ocorridos no sector da segurança nacional.
Enquanto avança o processo de reforma nas duas agências de segurança, que deverá estar concluído em finais de 2011, será preciso manter uma pequena, mas robusta força no terreno.
Temos dois anos para empreender grandes esforços e alcançar notáveis progressos na transferência de competências e na capacitação em cada área, e também para dar às nossas forças os meios razoáveis necessários para manterem o seu moral, auto-estima, auto-confiança e eficiência.
Timor-Leste é um País do Sudeste Asiático, intrincada e orgulhosamente ligado a esta dinâmica região. Espero que o Governo explore as oportunidades para melhorar a segurança regional e a cooperação no sector da defesa, com amigos e vizinhos como a Indonésia, a Malásia, Singapura, Tailândia, Filipinas, Austrália e Nova Zelândia, em áreas que vão desde o treino policial e militar, aos exercícios conjuntos, formação em serviços de informação e partilha de dados, segurança marítima, etc.
Se Timor-Leste quiser participar futuramente em qualquer missão humanitária, ou de manutenção de paz no estrangeiro, acho que o deverá fazer no quadro regional, sob uma estrutura e um comando regionais.
Por isso acredito que nos teremos de empenhar para envolver mais os nossos vizinhos nos sectores de defesa e segurança, para aprender e melhorar o nosso ajustamento e adaptação à região.
Estou muito satisfeito com os progressos registados pela nossa cooperação no sector da defesa com Portugal, um amigo distante, mas leal.
A recente visita ao nosso país de um grupo de 2.000 fuzileiros norte-americanos teve grande êxito e foi alvo de imensa simpatia popular. Pela sua presença e actividades desenvolvidas, os U. S. Sea Bees – “Abelhas do Mar” – são um dos melhores exemplos do ideal da cooperação bilateral no sector da defesa, abrangendo as vertentes militar e civil, por prestarem a tão necessária assistência às comunidades locais. Timor-Leste deseja um incremento desta frutuosa relação com os Estados Unidos.
Timor-Leste tem de se aguentar por si próprio. Não podemos continuar dependentes de amigos e vizinhos, ou da ONU para ver garantida a nossa segurança interna, a paz e a estabilidade. A comunidade internacional e a ONU foram sempre simpáticas e generosas, contribuindo com mais recursos per capita para esta pequena Nação do que para nenhuma outra no mundo.
Não será preciso dizer que nem todos estes recursos foram aplicados criteriosamente e em benefício dos mais carenciados, que são a maioria dos pobres. Todavia, não poderemos negar esta extraordinária boa vontade por parte da comunidade internacional. E tenhamos presente que há muitas comunidades e nações em todo o mundo ainda com maiores dificuldades e carências do que nós.
Nós não somos os eleitos de Deus, ou da ONU. Até Deus abandona os seus filhos e filhas que vivem em conflito permanente e em pecado. Portanto, mais facilmente a comunidade internacional desistiria se os líderes Timorenses, os políticos, os da sociedade civil, religiosa, académica, ou do sector privado, não percorrerem metade do caminho que os separa uns dos outros para, juntos, contribuírem para aliviar o nosso povo da extrema pobreza, dando-lhes a paz e a tranquilidade que tanto deseja e merece.
Quando em Fevereiro falei no Conselho de Segurança das Nações Unidas, prometi ao Secretário-Geral e a este órgão que a UNMIT será a última missão da ONU em Timor-Leste; disse ao nosso bom amigo o Secretário-Geral Ban Ki-moon que, quando terminar o seu actual mandato e iniciar o segundo, em 2012, Timor-Leste estará em paz e relativa prosperidade. Então, ele poderá pensar em Timor-Leste como um problema resolvido.
Enquanto alguns pseudo-intelectuais e jornalistas medíocres insistem em que Timor-Leste é um Estado falhado, eu digo, com a sabedoria de quem teve uma vida intensa e rica, e foi testemunha de triunfos e sobrevivente de tragédias: Timor-Leste está no bom caminho. Recuperámos da crise de 2006; depois de anos de estagnação, ou lento crescimento, a nossa economia registou um crescimento real de 12,7 por cento em 2008 e, de novo, de quase dois dígitos este ano. O País está em paz. Vemos sorrisos permanentemente, e alegria nos rostos e nos olhos das pessoas, sobretudo nos das nossas mulheres e crianças, o grupo mais vulnerável: Díli é uma cidade em crescimento exponencial, para o melhor e para o pior.
Há uma fé renovada na liderança política e nas instituições, de acordo com uma sondagem independente realizada há um ano pelo International Republic Institute, dos Estados Unidos, que dá ao Governo uma nota muito alta e ao Primeiro-Ministro uma margem de aprovação de 80 por cento; as F-FDTL e a PNTL obtiveram uma percentagem semelhante. A todos dou os mais sinceros parabéns.
Dr. Atul Khare, ao partir de Timor-Leste, fique seguro de que a UNMIT, sob a sua liderança, deu uma significativa contribuição para o bem-estar generalizado do nosso Povo, para o clima de paz e segurança em que hoje se vive no nosso País. A sua excelência profissional, humildade e honestidade, a sua sabedoria acumulada, com milhares de anos, vinda de uma antiga civilização, fê-lo querido de todos e merecedor da nossa confiança.
Como enviado da ONU, ou diplomata de um país, considero que quem é investido de uma missão para representar uma instituição, ou o seu próprio país, se quiser ter êxito tem de ser capaz de ganhar o respeito e a confiança da comunidade de acolhimento e dos seus líderes, através da discrição, humildade, honestidade e trabalho duro. O Senhor triunfou.
A si, meu amigo, Dr. Atul Khare, e Senhora Vandna Khare, não direi adeus, porque nos voltaremos a ver uma e outra vez. Desejo-lhe boa saúde, felicidade e prosperidade nos anos vindouros. Desejo ao seu grande país, a Índia, berço do imortal Mahatma Gandhi, paz e prosperidade. Possam os dirigentes indianos ser ungidos da sua antiga, rica e benevolente civilização para ajudar a levar a paz ao Sudeste Asiático e a toda a Ásia.
FIM
________________________________________________
(1) O Presidente Xanana Gusmão, o Primeiro-Ministro Mari Alkatiri e o Presidente do Parlamento Nacional, Francisco Guterres “Luo Olo”, escreveram cartas aos Primeiros-Ministros da Austrália, Nova Zelândia, Malásia e Portugal para os informar que a República Democrática de Timor-Leste pedia urgentemente assistência militar e da polícia. A 24 e 25 de Maio, a Austrália, Nova Zelândia e Portugal mandaram cartas ao Presidente do Conselho de Segurança e ao Secretário-Geral das Nações Unidas assegurando prontidão para o envio de forças de defesa e segurança para Timor-Leste, com o objectivo de dar assistência para a restauração da estabilidade, conforme o pedido do Governo de Timor-Leste. A 25 de Maio houve ainda uma troca de cartas entre Timor-Leste e a Austrália, convidando este país a mandar forças armadas para ajudar Timor-Leste. No dia seguinte foi celebrado um Acordo sobre o Estatuto das Forças, definindo os seus ”objectivos, direitos e privilégios”. O objectivo do destacamento da ISF era: a) dar assistência a Timor-Leste para a restauração da segurança, confiança e paz, compreendendo a reposição e manutenção da ordem pública; b) dar assistência à segurança e protecção de pessoas e propriedades em Timor-Leste, e supervisionar as ocorrências violentas e intimidatórias; c) se necessário, dar assistência para a evacuação de cidadãos Australianos e de terceiros países, incluindo pessoal das Nações Unidas; d) a pedido da UNOTIL, dar protecção e apoio a esta missão, substituindo-se nas suas tarefas; e) facilitar operações de assistência humanitária. A 26 de Maio, forças internacionais recém-chegadas fizeram a segurança no perímetro do aeroporto e em outras instalações sensíveis, incluindo a da UNOTIL, onde se refugiavam muitos Timorenses.
(2) A Força Internacional de Estabilização, liderada pelo Comandante Australiano Brigadeiro-General Michael Slater, foi formada por tropas da Austrália, Nova Zelândia e Malásia; integrava, ainda, uma companhia de reacção rápida da polícia Portuguesa com 140 elementos; ao todo, era constituída por 3.500 efectivos. A contribuição dada no auge da crise de 2006 é assim resumida:
Austrália – 3.000 efectivos: Brigada de Infantaria da Força de Defesa Australiana com 1 x Batalhão de Infantaria, mais duas companhias de infantaria, Esquadrão de Comando, Esquadrão de Engenharia no terreno, apoio armado (33 viaturas armadas para transporte de pessoal), apoio aéreo (8 x helicópteros Blackhawk, 4 x helicópteros Kiowa e reabastecimentos diários assegurados por um avião Hércules), apoio aos Serviços de Combate (logística, transporte, administração, etc.); presença da Marinha Real Australiana (3 navios).
Destacamento Internacional da Força de Reacção Rápida da Polícia Australiana, com 200efectivos aproximadamente, incluindo equipas “especiais”.
Nova Zelândia - 200 soldados
Força de Defesa da Nova Zelândia – Presentes, na maioria, tropas de Infantaria, com elementos suplementares para apoio.
Malásia - 300 soldados
Forças Armadas da Malásia - 300 comandos da 10/a Brigada de Pára-quedistas, incluindo viaturas armadas para transporte de pessoal. Presença da Marinha Real da Malásia (rotação de unidades navais no porto de Díli).
Portugal – 140 polícias GNR, com um total de 51 viaturas, seis delas APCs.
Palavras chave:
AlONU,
Atul Khare,
ramos-horta,
UNMIT,
UNPOL
Estudantes no estrangeiro são os "novos heróis" do país
>> 20091208
O secretário de Estado e porta-voz do Governo de Timor-Leste considerou hoje os jovens estudantes no estrangeiro como "os novos heróis", de quem se espera um forte contributo para o desenvolvimento do país e consolidação da democracia.
Ao participar esta tarde, em Coimbra, num conjunto de enventos culturais dedicados ao seu país, Ágio Pereira, secretário de Estado do Conselho de Ministros timorense, disse que a experiência destes jovens, de viver em democracias consolidadas como a portuguesa, será importante para a consolidação de um Estado soberado de direito democrático.
“O papel dos ‘novos heróis’ é essencial. Edificar um Estado de valores de democracia liberal é um desafio”, frisou, acrescentando que a vivência em democracia implica a “arte de concordar e de discordar”.
No entendimento de Ágio Pereira, o papel que Timor-Leste espera destes jovens, com as suas competências técnicas e vivências, não ofusca o contributo dos ‘antigos heróis’, daqueles que lutaram para alcançar a independência, assumida em 2002.
“O quão difícil é edificar um Estado a partir do zero. É preciso muita coragem e patriotismo, para regressar a Timor-Leste com muitas incertezas, mas é um acto sagrado que todo o timorense tem de assumir”, observou.
Para Ágio Pereira, regressar ao país “é apenas o primeiro passo”, mas “é com os ‘novos heróis’ que se ganham alicerces a longo prazo”.
“Quando olho para a Guiné-Bissau doi-me muito. Ainda está à procura do seu caminho”, observou, ao realçar que em Timor-Leste, apesar dos problemas vividos, tem sido possível encontrar vias para a democracia.
Élio Guterres, presidente da associação de estudantes timorenses em Coimbra, que afirmou o propósito de regressar a Timor-Leste no próximo ano após concluir o mestrado em Geologia do Petróleo, disse que os principais problemas com que se defrontam estão relacionados com o mau domínio da língua portuguesa.
Realçou que o problema está relacionado com o facto de só a partir de 1999 a língua portuguesa ser ensinada nas escolas timorenses, após o domínio indonésio.
A embaixadora de Timor-Leste em Portugal, Natália Carrascalão, disse que isso exige uma melhor preparação dos estudantes que vêm para o ensino superior em Portugal, o que já está a ser feito com a abertura de novas escolas portuguesas.
O programa cultural dedicado a Timor-Leste, além de um encontro entre responsáveis políticos e estudantes, compreendeu a inauguração de exposições de fotografia e uma “noite de música”.
Palavras chave:
Agio Pereira,
Coimbra,
Timor-Leste
Conferência "Dez anos depois: Timor e Macau"
Museu do Oriente, Lisboa
Dia 3 de Dezembro de 2009
10h00 – 18h00
Síntese da intervenção de Ágio Pereira
“Timor: a transição para a independência”
“Timor: a transição para a independência”
A abordagem do tema “Timor: a transição para a independência”, com o objectivo de avaliar a evolução de Timor-Leste nos últimos dez anos, que correspondem às sucessivas etapas da fundação e da construção do Estado, é uma enorme responsabilidade para mim. A meu ver, há que ter em conta vários aspectos dessa fase da História de Timor-Leste, tanto colonial como da resistência: a perda de vidas de centenas de milhares de timorenses, o espírito de luta de um povo cujo abandono por quase toda a comunidade internacional durante mais de duas décadas nunca sacudiu a sua determinação de ser livre e independente, e os sacrifícios sofridos desde a Consulta Popular até hoje, para garantir que o futuro seja enriquecido de paz, harmonia e bem-estar social.
É certamente impossível cobrir todos estes parâmetros durante um dia de conferência, mas será possível, no espaço de tempo permitido, debruçarmo-nos nos aspectos mais determinantes desta etapa de transição de dez anos, tendo como pontos de referencia o Acordo Entre Portugal e a Indonésia sobre a questão de Timor-Leste, mais conhecido como o “Acordo de 5 de Maio”, e a Consulta Popular de 30 de Agosto de 1999.
É-nos constantemente recordado por peritos internacionais que o caso de Timor-Leste é um caso de pós-conflito, mas esta conceptualização raras vezes é acompanhada de explanações específicas e adequadas sobre a razão da necessidade de ter em conta este contexto histórico. “Será que os conflitos de facto terminam num ponto temporalmente determinado da História para necessariamente darem lugar à paz?”. Esta é uma questão a responder, porque tal poderá ajudar-nos a visualizar melhor os dez anos de transição já transcorridos no percurso do nosso povo para a consolidação das metas da independência nacional. “Quais são estas metas?” será outra pergunta de relevo a colocar cujas respostas deveremos contemplar nesta importante conferência.
Ágio Pereira – 53 anos. Secretário de Estado do Conselho de Ministros do IV Governo Constitucional de Timor-Leste. É também responsável pelos portfolios da Comunicação Social e Assuntos Parlamentares e coadjuva o Primeiro-Ministro na responsabilidade do Serviço Nacional de Inteligência (SNI). Porta-voz do IV Governo Constitucional e do Conselho de Ministros. Mestrado em Criminologia e justiça Criminal.
Antes de ser membro do IV Governo Constitucional, foi Chefe de Gabinete do Presidente da República de Timor-Leste, Kay Rala Xanana Gusmão e do actual Presidente da República, Dr. José Ramos-Horta.
Entre Julho a Setembro de 1999 foi Director do Departamento de Informação da Comissão Nacional da Campanha (CNRT), em Timor-Leste, para a Consulta Popular de 30 de Agosto de 1999. Setembro 1999 até Setembro de 2000, Coordenador da Comissão Nacional de Emergência (CNRT). Foi membro do Conselho Nacional, órgão legislativo estabelecido pela UNTAET no qual foi eleito vice-presidente. No mesmo órgão, foi eleito presidente da Comissão Permanente para os Assuntos de Orçamento e Finanças e vice-presidente da Comissão Permanente para os Assuntos Políticos.
É membro da Comissão Directiva Nacional (CND), o órgão deliberativo do Partido CNRT.
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É certamente impossível cobrir todos estes parâmetros durante um dia de conferência, mas será possível, no espaço de tempo permitido, debruçarmo-nos nos aspectos mais determinantes desta etapa de transição de dez anos, tendo como pontos de referencia o Acordo Entre Portugal e a Indonésia sobre a questão de Timor-Leste, mais conhecido como o “Acordo de 5 de Maio”, e a Consulta Popular de 30 de Agosto de 1999.
É-nos constantemente recordado por peritos internacionais que o caso de Timor-Leste é um caso de pós-conflito, mas esta conceptualização raras vezes é acompanhada de explanações específicas e adequadas sobre a razão da necessidade de ter em conta este contexto histórico. “Será que os conflitos de facto terminam num ponto temporalmente determinado da História para necessariamente darem lugar à paz?”. Esta é uma questão a responder, porque tal poderá ajudar-nos a visualizar melhor os dez anos de transição já transcorridos no percurso do nosso povo para a consolidação das metas da independência nacional. “Quais são estas metas?” será outra pergunta de relevo a colocar cujas respostas deveremos contemplar nesta importante conferência.
Biodata
Ágio Pereira – 53 anos. Secretário de Estado do Conselho de Ministros do IV Governo Constitucional de Timor-Leste. É também responsável pelos portfolios da Comunicação Social e Assuntos Parlamentares e coadjuva o Primeiro-Ministro na responsabilidade do Serviço Nacional de Inteligência (SNI). Porta-voz do IV Governo Constitucional e do Conselho de Ministros. Mestrado em Criminologia e justiça Criminal.
Antes de ser membro do IV Governo Constitucional, foi Chefe de Gabinete do Presidente da República de Timor-Leste, Kay Rala Xanana Gusmão e do actual Presidente da República, Dr. José Ramos-Horta.
Entre Julho a Setembro de 1999 foi Director do Departamento de Informação da Comissão Nacional da Campanha (CNRT), em Timor-Leste, para a Consulta Popular de 30 de Agosto de 1999. Setembro 1999 até Setembro de 2000, Coordenador da Comissão Nacional de Emergência (CNRT). Foi membro do Conselho Nacional, órgão legislativo estabelecido pela UNTAET no qual foi eleito vice-presidente. No mesmo órgão, foi eleito presidente da Comissão Permanente para os Assuntos de Orçamento e Finanças e vice-presidente da Comissão Permanente para os Assuntos Políticos.
É membro da Comissão Directiva Nacional (CND), o órgão deliberativo do Partido CNRT.
Palavras chave:
Ágio Pereira,
Confrerência,
Dez Anos Depois: Timor e Macau,
Museu do Oriente Lisboa,
Timor-Leste
Timor necessita de médicos para mães e crianças, diz bispo
Díli, 8 dez (Lusa) – O Bispo de Díli, D. Alberto Ricardo, disse nesta terça-feira ser urgente que o país asiático seja dotado de estruturas de assistência materno-infantil, tendo em conta os níveis preocupantes de mortalidade.
D. Alberto Ricardo falava na entrega formal pela Fundação Mater-Timor, de iniciativa do Patriarcado de Lisboa, da Maternidade-Escola Nossa Senhora de Fátima à Diocese de Díli.
“Quase 90 em cada mil crianças morrem antes do seu primeiro aniversário, cerca de 130 em cada mil crianças não sobrevivem até aos cinco anos e 660 em cada 100 mil mães morrem durante o parto. Estas cifras alarmantes exigem que o país seja dotado de infra-estruturas capazes de responder a estas necessidades”, realçou o bispo de Díli.
Presente na cerimônia, o presidente timorense, Ramos-Horta, mostrou-se confiante de que a saúde pública vai melhorar no país, com a formação de médicos em andamento e sua respectiva distribuição pelo território.
“Há dezenas já de médicos timorenses e centenas de enfermeiros, mais de mil médicos potenciais timorenses nos próximos cinco anos, sendo 800 formados em Cuba, 200 em Timor e outros em diferentes outros países, pelo que, com tempo, Timor-Leste deixará de ter falta de médicos”, disse o presidente à Agência Lusa.
Dados recolhidos pela Fundação Mater-Timor indicam que uma em cada 16 mulheres em Timor-Leste morrem durante a gravidez e uma em cada dez morre devido a complicações relacionadas com a gravidez e o parto. Além disso, apenas 27% dos partos são devidamente assistidos, segundo um estudo de 2007 do Instituto de Ciências da Saúde.
Questão cultural
Além da falta de estruturas e de profissionais de saúde qualificados, existem fatores culturais e tradicionais que contribuem para esse quadro negro.
As grávidas recorrem quase que exclusivamente às parteiras tradicionais, excepto em casos dramáticos quando surgem complicações graves, e há práticas que radicam em crenças tradicionais desfavoráveis à saúde da mãe e da criança.
A Fundação dá como exemplo que tradicionalmente só seja permitido às mulheres, após o parto e até ao seu restabelecimento, comer arroz, açafrão, gengibre para mascar e malos (uma das folhas que ajuda no processo de cicatrização).
Em relação aos bebês recém-nascidos, não lhes é permitido mudar de roupa durante 40 dias e, durante este período, mãe e bebê ficam geralmente perto da lareira e não tomam banho.
Em todo o país existem apenas cinco hospitais distritais (Maubisse, Suai, Mailana, Bobonaro e Viqueque) e um Hospital Central (Hospital Guido Valadares em Díli).
Fora isso, existe apenas um médico por cada quatro mil habitantes, sendo o objetivo do Ministério da Saúde dispor de um médico por cada mil habitantes em 2015.
Na área da saúde materno-infantil não existem obstetras e ginecologistas locais, sendo os partos e outros cuidados materno-infantis assegurados por médicos de outras especialidades e outros técnicos de saúde.
Palavras chave:
Diocese de Díli,
Fundação Mater Timor,
Maternidade
Encontro / Exposições / Noite de música ... Por Timor-Leste, Sempre!
Dia 08/12 - PROGRAMA – Encontro / Exposições / Noite de música de Coimbra
14h45 – Encontro “O silêncio dos jovens. Que futuro?”
Local
Salão Brazil Largo do Poço, nº 3 – 1º
Programa
14h45 Recepção dos convidados
15h00 Palavras de boas vindas do Presidente dos Académicos Timorenses de Coimbra e abertura do Encontro sob o tema "O silêncio dos jovens. Que futuro?"
15h20
Intervenção da Sra. Embaixadora da RDTL em Lisboa, Drª Natália Carrascalão
14h45 – Encontro “O silêncio dos jovens. Que futuro?”
Local
Salão Brazil Largo do Poço, nº 3 – 1º
Programa
14h45 Recepção dos convidados
15h00 Palavras de boas vindas do Presidente dos Académicos Timorenses de Coimbra e abertura do Encontro sob o tema "O silêncio dos jovens. Que futuro?"
15h20
Intervenção da Sra. Embaixadora da RDTL em Lisboa, Drª Natália Carrascalão
15h40 Intervenção do Sr. Secretário de Estado do Conselho de Ministros e Porta-voz do IV Governo Constitucional da República Democrática de Timor-Leste, Dr. Ágio Pereira
16h10 Debate e intervenções da audiência
17h05 Apresentação musical Timorense
17h15 Lanche e encerramento do encontro
18h15 - “Rostos para a paz”, fotografias de Ana Rego (inauguração)
Local
Quebra Costas - Rua do Quebra Costas 45/49
Esta exposição estará patente até 26 de Dezembro
Local
àCapella - Capela Nossa Sra. Da Vitória – Rua Corpo de Deus
22h00
O espaço cultural àCapella proporciona uma noite de música dedicada a Timor Leste. "Convidamos a comunidade Timorense de Coimbra para nos vir ouvir numa noite em que teremos a presença de algumas das mais importantes individualidades Timorenses. Fazemos também o convite à comunidade Coimbrã para participar neste evento que pretende essencialmente a intervenção ainda maior dos estudantes de Timor na nossa cidade. Estamos certos que será uma noite em que Coimbra vai ficar mais ainda nos seus corações. Sendo um espaço em que se privilegia a partilha musical estamos convictos que vamos ouvir também alguns cantos de Timor. A não perder!!!!"
Patente a exposição de fotografias “Sira ba”, de Cláudio Calhau
Informações
Para qualquer esclarecimento sobre este evento é favor contactar Organização ÀCapella
Organização Moving Cause e Quebra Costas
Informações
Qualquer esclarecimento adicional sobre este encontro é favor contactar Organização Académicos Timorenses de Coimbra e apoio do Salão Brazil
16h10 Debate e intervenções da audiência
17h05 Apresentação musical Timorense
17h15 Lanche e encerramento do encontro
18h15 - “Rostos para a paz”, fotografias de Ana Rego (inauguração)
Local
Quebra Costas - Rua do Quebra Costas 45/49
Esta exposição estará patente até 26 de Dezembro
Local
àCapella - Capela Nossa Sra. Da Vitória – Rua Corpo de Deus
22h00
O espaço cultural àCapella proporciona uma noite de música dedicada a Timor Leste. "Convidamos a comunidade Timorense de Coimbra para nos vir ouvir numa noite em que teremos a presença de algumas das mais importantes individualidades Timorenses. Fazemos também o convite à comunidade Coimbrã para participar neste evento que pretende essencialmente a intervenção ainda maior dos estudantes de Timor na nossa cidade. Estamos certos que será uma noite em que Coimbra vai ficar mais ainda nos seus corações. Sendo um espaço em que se privilegia a partilha musical estamos convictos que vamos ouvir também alguns cantos de Timor. A não perder!!!!"
Patente a exposição de fotografias “Sira ba”, de Cláudio Calhau
Informações
Para qualquer esclarecimento sobre este evento é favor contactar Organização ÀCapella
Organização Moving Cause e Quebra Costas
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Qualquer esclarecimento adicional sobre este encontro é favor contactar Organização Académicos Timorenses de Coimbra e apoio do Salão Brazil
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Fronteiras com a Indonésia discutidas na ilha de Bali
>> 20091207

Timor-Leste e a Indonésia iniciam hoje, em Bali, uma ronda de negociações sobre as delimitações fronteiriças, aproveitando a realização naquela ilha indonésia do Fórum da Democracia, destinado a aprofundar a democracia na Ásia.
O Fórum da Democracia, que decorre até ao dia 12, será aberto pelo Presidente indonésio, Susilo Bambang e tem a presença confirmada de representantes de 29 países, entre os quais o primeiro-ministro japonês Yukio Hatoyama, e o de Timor-Leste, Xanana Gusmão.
A Austrália e a Nova Zelândia, que têm forças militares estacionadas em Timor-leste, estarão representadas, respectivamente, pelos seus ministros dos Negócios Estrangeiros, Brendan O`Connor, e da Imigração, Jonathan Coleman.
DAQUI
Palavras chave:
fronteiras,
Indonésia,
Timor-Leste
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