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"Timor é bom mercado para a Madeira"

>> 20091215

Timor-Leste é um potencial mercado para os investidores madeirenses. A mensagem é da embaixadora Natália Carrascalão.

A ex-deputada do PSD acredita que é possível reforçar ainda mais as relações de amizade e institucionais entre Portugal e o seu País e dá como exemplo as ligações linguísticas.

Natália Carrascalão esteve, ontem, na Madeira, numa visita particular que considerou ser uma forma de agradecimento a todos quantos cooperaram com o seu País. Depois da Madeira, a timorense quer conhecer os Açores.

No Funchal, a embaixadora extraordinária plenipotenciária da República Democrática de Timor-Leste em Portugal mostrou-se bastante satisfeita com a reedição do livro 'Gentio de Timor', da autoria de Armando Pinto Correia, um capitão natural do Estreito de Câmara de Lobos que foi administrador do distrito de Baucau, entre 1928 a 1934. "Trata-se de um livro muito importante para a cultura de Timor", referiu a diplomata.

De acordo com Natália Carrascalão existem pelo menos três timorenses com residência fixa na Madeira, um deles teve a oportunidade de se encontrar com a embaixadora durante esta visita à Região.

Visivelmente bem-disposta, a diplomata enalteceu a hospitalidade dos madeirenses e lembrou que o mercado timorense é uma boa oportunidade para os investidores locais.

"Há condições para os investidores da Madeira investirem num país com mão-de-obra bastante competitiva, onde está tudo por fazer", afirmou Natália Carrascalão, desafiando os madeirenses a se candidatarem aos concursos públicos internacionais.

Para além das obras públicas, o património linguístico é outra das grandes apostas de Timor-Leste que adoptou o português como língua mãe. O país vai continuar a recrutar professores e os portugueses, diz Natália Carrascalão, serão bem recebidos.

Apesar de particular, a deslocação de Natália Carrascalão não excluiu as autoridades regionais. Durante a tarde, a embaixadora foi uma das várias recebida pelo presidente da Assembleia Regional. Ontem, Miguel Mendonça recebeu também o director do SIS.(Patrícia Gaspar | 15-12-2009 | DNOTICIAS.PT)

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“Todos podem desenvolver Timor” | Natália Carrascalão


Na fotografia, Drª. Natália Carrascalão, Embaixadora de Timor-Leste. DEZ 2009 | © Margarida Azevedo
"O presidente do Governo Regional recebeu, ontem, na Quinta Vigia, a embaixadora da República Democrata de Timor-Leste em Lisboa.
À saída do encontro, Natália Carrascalão, que ocupa o cargo de embaixadora desde Setembro passado adiantou aos jornalistas que um dos seus objectivos é acompanhar todos os estudantes timorenses que se encontram em Portugal, para saber das suas dificuldades.
Este acompanhamento é tão mais importante porque” sair de uma terra pequena para um país grande como Portugal, não é fácil, de início”, sublinhou.
Natália Carrascalão pretende, também, e no que diz respeito à diplomacia económica visto que Timor é um país que se está a desenvolver e que tem potencialidades muito grandes, atrair investidores para que possam lá trabalhar.
“Timor é um país que hoje se recomenda, é um país estável, portanto, já estamos naquela fase de diplomacia económica, de tentar que as pessoas venham investir no nosso país que estamos a construir”, apontou tendo reiterado que “todos poderão nos ajudar, nesse sentido”.
No que diz respeito a Portugal, recordou que teve um papel importante, não só na luta pela independência de Timor-Leste como continua a ter ao nível da cooperação, agora de uma forma faseada porque já começa a fornecer quadros e estudantes, que são pagos pelo Governo Timorense, para além das relações afectivas.
Afirmou que estes laços “são cada vez mais fortes” e que fortalecer os laços entre dois países é uma das suas obrigações."

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"Língua portuguesa 'veio para ficar' no Timor, diz diplomata"

>> 20091119

Na fotografia, à direita, a Drª. Natália Carrascalão, Embaixadora de Timor-Leste. Imagem de arquivo © Margarida Azevedo
"Cidade da Praia, 19 nov (Lusa) - A língua portuguesa, "por uma questão de identidade, veio para ficar" no Timor Leste, onde cerca de 20% da população falam o idioma, informou nesta quinta-feira à Agência Lusa a nova embaixadora timorense em Cabo Verde, Natália Carrascalão.

Em entrevista concedida na Cidade da Praia, onde entregou, na quarta-feira, as credenciais ao presidente cabo-verdiano, Pedro Pires, a diplomata ressaltou que, apesar dos constrangimentos sofridos pelos timorenses durante a ocupação indonésia (1975/2002), o português "fazia parte" da população.

"A língua portuguesa veio para ficar, porque foi escolhida pelos líderes políticos da época, na sequência daquilo que a população queria. O português é uma língua de timorenses também. Quando escolhemos a nossa língua foi por uma questão de identidade. Fazia parte de nós", afirmou.

Atualmente, prosseguiu, as crianças já aprendem o português nas escolas, e os adultos com mais de 40 anos geralmente falam o idioma. "Muito rudimentarmente, mas falam".

"A forma de pormos a língua portuguesa a andar para a frente passa também pelo apoio, por exemplo, da RTP Internacional, que é muito vista no Timor Leste, que poderia começar a passar programas mais agradáveis para que aquela juventude comece a vê-la e ouvi-la", defendeu.

"Não quero estar a ser muito otimista, mas, se se percorrer Díli, já não deve haver ninguém que não saiba dizer algumas palavras em português. Posso ser muito otimista, mas acredito que pelo menos 20% da população já fale português", referiu.

Sobre a situação atual no Timor, Carrascalão afirmou que o país vive um momento de grande desenvolvimento e, em 2010, começarão a ser vistos os resultados da aposta nas infraestruturas rodoviárias, portuárias e aeroportuárias, que vão, paralelamente, permitir desenvolver o setor do turismo.

Carrascalão, embaixadora do Timor em Portugal desde 24 de setembro, entregou na quarta-feira ao presidente timorense as cartas que a credenciam como embaixadora não residente do país em Cabo Verde, estando previsto, para breve, que faça o mesmo em Madri (Espanha)." (19/11/2009 19:04 | Agência Lusa)

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Embaixadora de Timor-Leste em Portugal recebe Presidente dos ATC

>> 20091109


Foto: DG/ATC

"No dia 12 de Outubro de 2009, o presidente dos ATC encontrou-se pela primeira vez com a nova embaixadora de Timor Leste, Dr.ª Natália Carrascalão, no seu gabinete em Belém. Os objectivos do encontro foram: a apresentação da associação dos Académicos Timorenses de Coimbra (ATC) à nova Embaixadora da RDTL, as dificuldades que os membros estudantis enfrentam, tais como: a dificuldade da língua Portuguesa, a falta ou o pouco apoio, tanto financeiro como psicológico aos estudantes mais vulneráveis, a falta ou a diminuição da vinda de estudantes novos para Coimbra, o que leva ATC para o caminho de enfraquecimento da sua existência e finalmente pedir a embaixada uma especial atenção em relação aos estudantes que estão na recta final do seu percurso académico.

Em relação a existência dos ATC, a Sr.ª Embaixadora, Dr.ª Natália Carrascalão, disse que já tinha conhecimento através da Leni Fernandes, membro dos ATC, que devido a motivos pessoais regressou a Timor e trabalhou com a actual Embaixadora quando esta exercia o cargo de Chefe de Gabinete do Presidente da República de Timor Leste, Dr. José Ramos Horta. A Embaixadora ficou agradavelmente surpreendida com o número de estudantes timorenses existentes em Coimbra e principalmente com as diversas áreas de estudo destes estudantes.

Quanto as dificuldades na língua Portuguesa, a Sr.ª Embaixadora deu algumas sugestões tais como: procurar conviver mais com os estudantes portugueses e não só, de modo a criar o hábito de falar a língua Portuguesa e interagir mais com os colegas de residência, não só para aprender a língua e a cultura Portuguesa mas também de mostrar aos portugueses alguns hábitos dos timorenses, “uma pessoa que já se habituou a dormir com a lipa* ou comer comida timorense tal como batar da´an, não tenham vergonha em praticar esses hábitos numa residência estudantil, porque é mesmo assim a vida que nós, os timorenses, temos e é este o nosso hábito”. Disse ela. A questão da língua “A língua Portuguesa não é só dos Portugueses mas também dos timorenses, porque é a língua oficial de Timor Leste ”, acrescentou.

Apesar de estar a exercer há pouco tempo o cargo, a Sr.ª Embaixadora demonstrou bastante interesse em se inteirar da situação dos estudantes Timorenses e estabelecer um plano de apoio para aqueles que estão com mais dificuldades, nomeadamente no que diz respeito ao pagamento de propinas em atraso de modo a poderem se inscrever no ano lectivo seguinte e aos licenciados que pretendam requerer o certificado de habilitações, visto que sem o certificado não podem ingressar no mercado de trabalho. Afirmou que a embaixada não tem dinheiro mas prometeu informar o Ministro da Educação sobre o assunto.

Falou se também dos estudantes do projecto do IPAD (Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento) que neste momento se encontram em dificuldades financeiras em tirar o mestrado, uma vez que a bolsa de estudo que possuem só abrange a Licenciatura. O objectivo desses estudantes é o de complementar a sua licenciatura com o Mestrado a fim de poderem se especializar mais na sua área de formação, podendo assim dar uma contribuição melhor no regresso à Pátria. Ficou a promessa da Sr.ª Embaixadora em negociar com o IPAD uma possível prorrogação da atribuição das respectivas bolsas.

Relativamente a redução de número de estudantes Timorenses em Coimbra, o presidente dos ATC manifestou a sua preocupação, nomeadamente ao reduzido número de estudantes novos que ingressam na Universidade de Coimbra, visto que a continuidade dos ATC depende dos seus membros estudantes. “ATC está a perder os seus membros, ATC está a enfraquecer….é bom ouvir a palavra sucesso no percurso académico, mas para esta querida associação, não é assim tanto”, querendo o presidente dizer com isso que terá que haver um equilíbrio relativamente aos estudantes que acabam o curso e os novos que se vão ingressar, havendo assim uma compensação. Para esclarecer a preocupação do presidente, o adido para a educação, Sr. João Aparício Guterres referiu que realmente houve planos para a vinda de novos estudantes para Coimbra mas por razões de saúde apenas irá ser possível a vinda de 1 estudante no presente ano lectivo, ficando o outro estudante de vir só no próximo. Sobre a questão das dificuldades financeiras dos estudantes, o Sr. João Aparício referiu que “para um bom atendimento por parte do Governo de Timor Leste, é preciso que todos os estudantes que se encontrem em dificuldade financeira, apresentem, com toda a clareza, a sua situação e que cumpram todos os requisitos feitos pelo Governo, em específico, pelo Ministério da Educação, caso contrário poderá haver uma impossibilidade em atribuir o apoio em forma de bolsa de estudo ou um subsídio para pagar as propinas”.

No final do encontro o presidente dos ATC aproveitou a ocasião para convidar a Sr.ª Embaixadora para participar no encontro nacional de estudantes Timorenses em Portugal no âmbito da comemoração do 10º aniversário do Referendo e cerimónia de homenagem às vítimas do massacre do dia 12 de Novembro de 1991. É um encontro com o objectivo de reunir, não só os estudantes Timorenses em Portugal mas também as entidades ou organizações Timorenses existentes no país. O encontro tem como tema principal “RETROSPECTIVAR OS PASSOS DADOS, OLHAR PARA O FUTURO”. Apesar de ter uma agenda bastante preenchida, ficou a promessa por parte da Sr.ª Embaixadora em nos honrar com sua presença e referiu que irá estender o convite ao Sr. Ministro da Educação, Dr. João Câncio." (ATConline)
Fonte: Hélio Guterres, Presidente ATC Edição: ATConline Publicação: 3-11-2009
Acessível em:  ATConline: http://www1.ci.uc.pt/atc/ATC_helioG_nataliaC.html

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Numa entrevista de Setembro de 1999... em memória! Natália Carrascalão futura Embaixadora RDTL em Lisboa

>> 20090328


Viagem a Timor Loro Sae
Sexta, 01 Outubro 1999 00:00

Natália Carrascalão, uma timorense, mostra-nos o drama vivido na primeira pessoa, com toda a angústia e determinação características daquele povo.

Pouco passa das três da tarde, numa tarde iluminada pelo sol de Setembro. Ligeiramente perdida, procuro seguir as indicações que Natália Carrascalão me dera no dia anterior, por telefone. A ideia é encontrar um centro social onde vivem apenas timorenses, algures em Queluz. Da conversa do dia anterior, recordo apenas que devo encontrar uma agência bancária, que fica numa esquina. Resolvo ligar-lhe para o telemóvel, a pedir ajuda.

Concordamos que o melhor mesmo é ela vir ter comigo.
Minutos depois, Natália vem ao meu encontro, ao volante do seu Renault Clio branco. Branco a cor da paz. Será coincidência? Concluo que sim, e sigo atrás, por uma rua larga, de prédios modestos, quase todos brancos.

Paramos junto ao número 59 e subimos ao primeiro andar. Natália explica-me que ali só vivem famílias timorenses e indica-me a porta da casa do seu sobrinho José. José é um dos irmãos de Manelito Carrascalão, assassinado aos 17 anos, pelas milícias pró-integração em Díli, em meados de Abril, durante o assalto à casa do pai, Manuel.

Do lado de fora da porta, leio uma única palavra, em letras grandes: TIMOR.
Começa aqui a minha viagem ao encontro de um povo marcado pelo sofrimento, mas também pela coragem.


O primeiro olhar vai para a fotografia, em tamanho grande, de Manelito, na parede do hall de entrada. Uma foto dos "dias felizes", antes da fatídica manhã de 17 de Abril.


Mais tarde, Natália há-de mostrar-me fotografias de Manelito, depois do ataque. São imagens de horror, que não esquecerei. São, explica-me, "as provas que nós temos que ter" de tudo o que passa em Timor. Lá estão também as fotos do funeral, em que não falta a presença dos militares indonésios. Pergunto-me porque motivo, nem na hora da morte, esta família tem direito a uns momentos de privacidade.

No memorial a Manelito, por baixo da foto, há também uma pequena mesa, com duas velas sempre acesas. Entendo-as como uma homenagem a uma vítima inocente, mas também como uma réstia de esperança numa paz que tarda em chegar.

Natália apresenta-me aos sobrinhos, quase todos crianças "Venham cá cumprimentar a senhora" Nos olhos de todas, noto uma tristeza imensa, noto também um surdo pedido de ajuda, envolto num manto de sinceridade. Depois, a tia faz questão de me mostrar a casa. Uma cozinha, uma casa de banho e três quartos relativamente grandes, todos eles com mais do que uma cama ou com beliches. O mobiliário é escasso, apenas o necessário para comer e dormir. Num dos quartos, há uma televisão "foi oferta; as pessoas têm ajudado muito; agora, a preocupação é a escola; afinal, são oito crianças; eu vou fazendo o que posso", conta Natália.

Seguimos depois para a cozinha, onde me oferecem um saboroso café, à medida que vão deitando para fora a imensa dor pela tragédia que se agravou em Timor, nas últimas semanas.

Mais do que simples jornalista, sinto-me uma amiga. É a primeira vez que visito uma família timorense, mas tratam-me como se me conhecessem desde sempre.

Natália fala-me da saída do irmão Manuel, a caminho de Jacarta para Lisboa, por causa de variadas ameaças de morte; fala-me das incertezas sobre o paradeiro de familiares e amigos; conta-me histórias de mulheres degoladas, simplesmente porque não se deixaram violar pelos indonésios. E as lágrimas vêm-lhe aos olhos, quando fala nas crianças refugiadas, sem leite para beber há vários dias e sabe-se lá por quanto tempo "nós, sabe, enquanto houver árvores, lá nos vamos desenrascando agora, o leite para as crianças". Por esta altura, os números do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados contam cerca de 600 mil deslocados, desde 30 de Agosto, o dia do referendo. Grande parte são crianças, sem leite que os ajude a crescer, sem saber sequer se vão ver o sol nascer amanhã. Crianças que podem já não estar vivas, quando a força internacional de paz entrar em solo timorense. Natália confessa os receios de que os soldados venham a sofrer o drama na pele, "porque os militares indonésios vão, com certeza, fazer-lhes frente, especialmente aos australianos". Receia que seja tarde demais. Receia "encontrar um Timor vazio de timorenses".

Natália Carrascalão, 46 anos de idade, é um dos onze irmãos Carrascalão ainda vivos. Filha de mãe timorense, de Baucau, e de pai algarvio, de São Bráz de Alportel, veio para Portugal dois meses antes da invasão indonésia, em 1975, já lá vão 24 anos. Depois do casamento com um oficial do exército português, veio passar uns tempos a Portugal. Dois meses mais tarde, as tropas de Jacarta invadiram Timor, e nunca mais pôde regressar.

Mãe de um filho de 23 anos, nascido em Portugal, descreve as mulheres timorenses como "mulheres simples, grandes mães, valentes lutadoras, que quando se agarram a uma causa, vão com ela até ao fim, e enquanto não conseguem atingir os objectivos a que se propõem, não sossegam".

E tem sido esse espírito de luta e de sacrifício, que as transformou, desde sempre, "no grande suporte dos maridos na evolução de Timor". Um apoio que se manteve e se intensificou nos anos difíceis, sem fim à vista, da ocupação indonésia.

Natália define a resistência das timorenses como "mais reservada, mais nos bastidores, tentando transmitir aos seus filhos aquilo que os pais, os homens, fazem pela causa timorense". Uma luta que não deixa de ser "corajosa e determinada". E conta como o seu filho, português, "que praticamente não conhece Timor, sabe tanto de Timor como os timorenses, porque consegui transmitir-lhe essa causa; acho que ele, tendo nascido em Portugal, sendo filho de pai português, é tão timorense como os timorenses que estão em Timor".

Mas nem todas as timorenses se ficam por esta resistência "mais discreta". Há também as que lutam nas montanhas, ao lado dos guerrilheiros das Falintil. Natália conta, com um sorriso, que há, pelo menos, trinta guerrilheiras, "mas, nesta altura, esse número deve ter aumentado!".

"O que leva estas mulheres a enfrentarem a vida no mato? O que as leva para lá?", pergunto, sem deixar de imaginar como será a vida de uma guerrilheira das Falintil. Natália responde, com a determinação à flôr da voz, que é precisamente "o descontentamento, as constantes violações de que têm sido vítimas" ao longo de mais de duas décadas de presença indonésia. Explica-me que "irem para junto dos homens das Falintil, é a forma de se manifestarem; e visto que os timorenses são poucos, todos os braços são necessários" para pegar em armas e combater pela libertação.

Por esta altura, com o microfone e o gravador a funcionar, apercebo-me do repentino silêncio que se fez naquela cozinha. Onde está o corropio que senti ao entrar naquela casa? Para onde foram as crianças? "Sabem que estou a dar uma entrevista" e, por isso, sabem que não devem estar aqui. É o retrato de uma família timorense, organizada, apesar dos momentos negros porque tem passado.

Vêm-me à memória as imagens dos timorenses refugiados na sede da missão das Nações Unidas em Díli. Apesar do pânico e da incerteza do momento seguinte, limitaram-se a fazer silêncio e a rezar. "Como é possível manter a calma e a organização, numa situação assim?", pergunto. A resposta é clara: só a calma e a organização, permitem conquistar alguma coisa. Só assim se pode reconstruir um país em que se viva em paz e em liberdade. Só assim "podemos gritar bem alto que ainda existimos, que não queremos ser um povo dispensável e, muito menos, descartável".

Calma e organização, aliadas a uma grande Fé. A Fé dos timorenses é "inquestionável é a última esperança dos timorenses. Jamais deixaremos de ser católicos. Deus não dorme; Deus é grande; e, até ao último momento, vai estar sempre connosco".

Só assim "podemos recomeçar do zero", "reconstruir um país a partir do nada". Uma reconstrução em que o papel das mulheres é incontornável. Em todas cresce o sonho de voltar o mais depressa possível, sem que esse "mais depressa" tenha uma data no horizonte. Natália garante que, quando regressar, não quer "ter qualquer cargo em governo nenhum". Há muito para fazer, "especialmente a nível humanitário. Podemos tomar conta das crianças que vão ficar orfãs, tratar das pessoas da terceira idade, ensiná-las a ler e a escrever", como fez com a mãe.

Nos últimos meses, e ainda mais, depois do referendo, Natália Carrascalão tem-se desdobrado em iniciativas para denunciar a situação no território. Ainda assim, confessa-se uma mulher "completamente amargurada", à mistura com um profundo sentimento de "impotência por não poder fazer mais". Mais do que isso, não esquece o dia em que, através da RTP, apelou ao voto na independência. Recorda-o com visível tristeza no olhar, e murmura que "também é culpada" do que está a acontecer. Afinal, não acredita que "eles, algum dia, deixem Timor em paz".

Desligado o gravador, José e as crianças juntam-se de novo a nós. Com ele, traz um envelope cheio de fotografias. "Impressiona-se muito?", perguntam-me. "Então, é melhor não ver". Não quero ver é a melhor forma de conhecer o motivo dos protestos sem fim dos portugueses, nas últimas semanas. É a maneira mais real de ver o que nos causa uma indignação que não conseguimos definir.

Passo, então, uma a uma, demoradamente, as fotografias da destruição. Começa pelos "dias felizes". Os dias em que o irmão, Manuel, dava abrigo a mais de 100 refugiados. Depois, as imagens das mortes, dos ataques, dos feridos, dos mortos, do funeral de Manelito.

Foto a foto, vão-me explicando o que vejo. Em todas elas, há sempre, pelo menos, um militar de Jacarta. Até mesmo dentro de casa de José Carrascalão, enquanto se prepara o funeral de Manelito. Presentes, apenas.

in http://www.mulherportuguesa.com/sociedade/101/2621

nota pessoal: Lamento não conseguir saber o nome da jornalista que fez a entrevista, azelhice minha, mas lembro-me de a ter lido e não encontrar de momento melhor homenagem. Tenho em memória Natália Carrascalão ter visto uma série de fotografias a preto e branco no Espaço Timor em Lisboa... Por Timor Leste Sempre!

Esperamos que esta seja a nova cara da Embaixada da República Democrática de Timor-Leste em Lisboa! Por um futuro melhor!

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